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quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Sementes e frutos, crtica de Antonio Carlos Secchin a Matadouro de Vozes





Sementes e Frutos

Antonio Carlos Secchin


 
Trama-se num desalento crônico a tensa e densa poesia de Matadouro de vozes, mais recente obra poética de Ronaldo Costa Fernandes, cuja trajetória de ficcionista, contemplado com alguns dos mais importantes prêmios nacionais (e o internacional, da Casa de las Américas) vem cedendo espaço à sua vigorosa veia do poeta.
O título já propõe um paradoxo: se a poema deseja ser o lugar onde uma voz possa nascer, como, ao mesmo tempo, ele se torna abrigo de um matadouro de vozes? A contradição se desfaz se consideramos o poema como o espaço onde se fala de tudo que o cerceia e deseja silenciá-lo: é pelo exorcismo da não poesia, do "matadouro", que a poesia aspira a (sobre)viver, na condição náufraga de voz a esmo, e, por isso, incapturável ou indomesticável a apropriações de toda espécie. Ronaldo transforma em liberdade o que parece degredo, afirmando, com desassombro, a condição de uma palavra acuada e acusada: "juro dizer a verdade/ nada mais que a poesia". É essa palavra segregada o objeto de desejo do poeta: "paciente que sou do hospital/ das clínicas poéticas/ onde vivo internado há décadas/ sem previsão de alta".
Daí decorre a sensação ambígua de desânimo e de recôndito orgulho da própria marginalidade. A consciência de estranhamento frente aos ritos sociais alija o artista dos protocolos da tribo, condenando-o à mais acintosa solidão. Tal relação doída e inamistosa com que lhe é vizinho patenteia-se, ao longo do livro, já na carga semântica negativa (ou, quando não, neutra) da maioria dos substantivos e adjetivos que nomeiam os textos: egoísmo, lamentações, despojos, lobo, azar, mal, ilusão, negrume, renúncia, néscios, viciados, cínica. Inexiste a aproximação com o outro, e isso se torna patente não apenas no maciço predomínio de textos em que apenas o "eu" se presentifica, como também no aspecto correlato, e simetricamente oposto, da quase total ausência do "tu". Uma segunda pessoa tão esvaziada de vida quanto o simulacro humano do manequim fantasmagórico que ocupa a capa do livro, não por acaso num ambiente de escuridão e diante de portas cerradas. Se formos lastrear as convocações diretamente dirigidas pelo poeta a um interlocutor em segunda pessoa, encontraremos de início não o "tu", mas o distanciado e divino "Vós": "Ó Deus, tirai-me dessa piscina de nillismo". Ou, então, um outro impermeável ao diálogo ("Tu me falavas/ de futuros indecifráveis"), marcado pela ausência física, seja momentânea ("Há cinco anos que não te ouço mais), seja irreversível, como no belo (pseudo)diálogo com "Frida Kahlo". Também em torno de contatos frustrados gira o poema "Diálogos": "Dialogarei com os mortos/.../ E, se ninguém me ouvir/ falarei aos ventos, / que, como rádio, / falam sozinhos".
Numa ardilosa (e fingida) sinalização de intercâmbio, em algumas peças o "eu" se pluraliza, transformando-se em "nós". Porém, um olhar mais atento logo percebe que na poesia de Ronaldo a primeira pessoa do plural, em vez de sinalizar coesão, aponta, ao contrário, um conjunto de "eus" solitários: "nós" que não se atam. Vozes que se esvaem em recíproco desconhecimento, desunidas em desarmônico plural.
A carpintaria da forma, em Ronaldo, o leva a criar saborosos (muitas vezes, gastronômicos) neologismos. Adepto ferrenho do verso livre e refratário à utilização da rima, o discurso do poeta, bastante pessoal, não deixa, aqui e acolá, de evocar a sombra de Drummond, como em "A imagem em arabesco". Mas, se no poeta mineiro, existia, ao término da Segunda Guerra Mundial, um olhar prospectivo de otimismo, no poeta maranhense nada parece salvar-se. É ler "Búfalo sobre plantação", em que, à abertura jubilosa – apesar, ressaltemos, do verbo "doer" – "Meu cérebro dói de tanta esperança", contrapõe-se o melancólico desfecho – "a cachoeira das águas passadas/ que movem o moinho das desventuras".
Nada se salva? Algo, talvez. Exatamente no meio do caminho, no poema 37 de um conjunto de 74, Ronaldo Costa Fernandes incrustou "Criadouro de vozes", que aponta, pela arte, a via de uma salvação possível: "abriremos uma estrada/.../ Logo as árvores vergastadas pelo vento/ lançarão ao chão/ as sementes dos caminhos". As sementes foram lançadas, e germinaram nos frutos poéticos deste belo livro.


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A maldição da estreia, Antonio Carlos Secchin


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Costumamos imaginar dois tipos de avaliação de um autor experiente quanto a seu livro de estreia: endosso ou rejeição. Mas, entre os dois extremos, a gama de reações parece infindável, como veremos a seguir, acompanhando as estratégias de afamados escritores brasileiros do século XX frente a suas primeiras obras, no campo da poesia.

Na ponta do endosso, um nome que avulta é o de Manuel Bandeira. Lançou "A Cinza das Horas" em 1917 (contava, então, com 31 anos) e até o fim da vida não cessou de reeditar o volume, ainda que ele próprio já houvesse substituído a dicção parnaso-simbolista da obra inicial pela linguagem modernista, soberana a partir de "Libertinagem" (1930).

Na ponta do "não" radical, Cecília Meireles. Publicou aos 18 anos (em 1919) o opúsculo "Espectros", de fatura neoparnasiana. Não contente em jamais reeditá-lo, chegou ao ponto de sequer permitir que o livro fosse arrolado em sua bibliografia. Em decorrência, "Espectros" tornou-se um dos mais fantasmagóricos mistérios das letras brasileiras: durante mais de 80 anos se chegou, até mesmo, a conjecturar que não restara sequer um exemplar para contar a (pré-)história ceciliana. Finalmente localizado no início do século XXI, foi incorporado à "Poesia Completa" da escritora, na edição comemorativa de seu centenário de nascimento.

Guimarães Rosa tampouco pensou em endossar suas primícias poéticas - que representaram, aliás, no conjunto do autor, uma solitária incursão ao gênero. Bem antes de consagrar-se como notável ficcionista, a partir de "Sagarana" (1946), Rosa obtivera com "Magma", em 1936, o primeiro lugar em concurso de poesia promovido pela Academia Brasileira de Letras. Somente em 1997, 30 anos após a morte do escritor, foi publicado o volume, que em quase nada lhe prenuncia o talento.

Vinicius de Moraes renegou na íntegra "O Caminho para a Distância" (1933), fazendo constar, num adendo a bibliografias posteriores, que a edição fora "recolhida pelo autor". Publicada quando Vinicius contava 20 anos, tributária do influxo da poesia de Augusto Frederico Schmidt e do pensamento católico, a obra estampa uma visão atormentada e culposa do desejo, bem diversa daquela que o poeta em breve iria abraçar.

Já no extenso arco das estreias rejeitadas, "ma non troppo", figura "Há uma Gota de Sangue em Cada Poema" (1917), de Mário de Andrade, sob pseudônimo de Mário Sobral. O poeta afirmava que escritor algum deveria publicar antes dos 25, mas, no fim (ou no início) das contas, acabou desprezando a regra que ele mesmo criara, pois aos 24 anos editou a plaquete. É verdade que excluiu o volume de suas "Poesias" (1941), mas o preservou por inteiro em "Obra Imatura" - no caso, o adjetivo "imatura" parece sinalizar quase um pedido prévio de complacência ao distinto público.

Cassiano Ricardo opera em sentido diverso: aparentou preservar o pioneiro "Dentro da Noite" (1915), publicado aos 20 anos, nas "Poesias Completas" de 1957, mas o descaracterizou de tal modo que, dos 43 textos originais, apenas 5 reapareceram - ainda assim, com várias (não explicitadas) alterações. Como se não bastasse, enxertou, em 1957, dois poemas inexistentes na versão de 1915, dando a entender que houvessem desde sempre integrado o primeiro livro.

Nesse particular, Cassiano foi o mais camaleônico de nossos modernistas, sem pejo de reinventar continuamente o próprio passado, e considerando-se desobrigado de dar notícia das transformações (muitas vezes radicais) que efetuava em obras pregressas, tornando-as a posteriori mais "modernas" do que efetivamente haviam sido. Assim, um poema discursivo, originalmente em 50 versos, intitulado, em 1947, "A Inútil Serenata", ressurge em 1957, renomeado, sem aviso prévio, de "Serenata Sintética", e reduzido à concisão exemplar de seis escassos versos: "Lua/ morta/ rua/ torta/ tua/ porta".

Na esteira de Cassiano, outro poeta de São Paulo, Mário Chamie, também timbrava pela radical e subterrânea reescrita do passado. Chamie, aliás, foi bastante próximo de Cassiano Ricardo, a cuja obra dedicou minucioso estudo. A manutenção do título é o único ponto comum entre o "Espaço Inaugural" de 1955 (quando Mário tinha 22 anos) e o de 1977 (incluído em "Objeto Selvagem"). A versão de 1977 suprime na íntegra todos os poemas originais, substituindo-os por peças mais afins da estética do movimento de vanguarda Práxis, lançado e capitaneado por Chamie no início da década de 1960.


Com Murilo Mendes ocorreu fenômeno curioso: não renegou o primeiro e sim o segundo livro, "História do Brasil" (1932), por julgá-lo limitado demais ao compromisso para com o filão de poesia satírica e humorística do modernismo de 22. Na "Advertência" a suas "Poesias" (1959), assim justificou a eliminação dessa obra e o grande número de alterações impostas à versão original de outros livros: "Para esta edição revi inteiramente todos os textos, tendo também suprimido vários poemas que me pareceram supérfluos ou repetidos. Procurei obter um texto mais apurado, de acordo com a minha atual concepção da arte literária. Não sou meu sobrevivente, e sim meu contemporâneo". Agiu, portanto, conforme outros agiram, no sentido de uma modernização estilística, tendo, porém, o zelo de tornar pública a intervenção renovadora.

João Cabral de Melo Neto oscilou bastante nos procedimentos de inserção dos poemas de "Pedra do Sono" no conjunto de sua obra. O autor, que contava 22 anos quando o livro veio a lume (1942), sempre o considerou o mais frágil de sua produção, pela ostensiva presença de um veio surrealista, em pouco tempo eliminado (e execrado) pelo poeta. Ainda assim, os "Poemas Reunidos", de 1954, abrigam 24 dos 29 textos primitivos, destituídos dos respectivos títulos, e identificados em sequência de algarismos romanos. As "Poesias Completas", de 1968, reduziram a 20 poemas o espólio do livro, devolvendo-lhes os nomes e alocando-os no fim do volume. A "Obra Completa", de 1994, derradeira manifestação do autor sobre a questão, reconstituiu a integralidade de "Pedra do Sono".

Mais recentemente, Ferreira Gullar, que antes excluíra "Um pouco acima do Chão" (de 1949) da coletânea "Toda Poesia" (1980), chancelou o retorno da obra, desde que circunscrita ao "Apêndice", à sua "Poesia Completa, Teatro e Prosa" (2008). Os versos adolescentes, publicados na São Luís natal, vazavam-se em tom celebratório eivado de inflexões neorromânticas, numa atitude bastante diversa do complexo e filigranado trabalho de linguagem que Gullar desenvolveria, cinco anos depois, na forte poesia de "A Luta Corporal".

Se muitos poetas abandonaram o primeiro livro, houve um que jamais conseguiu dele sair: Raul Bopp. Com efeito, mesmo que tenha publicado alguns (poucos) títulos poéticos posteriores, Bopp persistiu inelutavelmente atrelado a "Cobra Norato", de 1928, de que passou a fornecer sucessivas edições com retoques, nem sempre felizes. Na contramão da maioria dos escritores, instalou-se para sempre no corpo de sua (c)obra inaugural.

Como a regra, porém, é o repúdio ou a restrição, em menor ou maior intensidade, ao "livro de estreia", poderíamos, com algum cinismo, sugerir aos jovens poetas que iniciem a carreira pelo segundo livro. Mas, se nos lembrarmos do exemplo de Murilo Mendes, o mais seguro, mesmo, é começá-la pelo terceiro.





Antonio Carlos Secchin é poeta, ensaísta e membro da Academia Brasileira de Letras

sábado, 14 de abril de 2012

O menino se admira, poema de Antonio Carlos Secchin

vieira_silva9g.jpg                                                                                                            A Bella Josef

O menino se admira no retrato
e vê-se velho ao ver-se novo na moldura:
é que o tempo, com seu fio mais delgado,
no rosto em branco já bordou sua nervura.

E por mais que aquele outro não perdure,
quase sombra no relâmpago desse ato,
ele há de ver-se mais antigo no futuro,
vendo ver-se no menino do retrato.

É que o tempo, de tocaia em cada corpo,
abastece a manhã com voz serena,
que pouco a pouco se transmuda em voz de corvo,

na gula aguda de ficar sozinho em cena.
A moldura vazia denuncia o intervalo:
sobra o tempo, e nada ou ninguém para habitá-lo.


imagem retirada da internet: bibliotéque en Feu, maria helena viera da silva

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

"A casa não se acaba...", poema de Antonio Carlos Secchin



A casa não se acaba na soleira,
nem na laje, onde pássaros se escondem.
A casa só se acaba quando morrem
os sonhos inquilinos de um homem.

Caminha no meu corpo abstrata e viva,
vibrando na lembrança como imagem
de tudo que não vai morrer, embora
as maçãs apodreçam na paisagem.

Sob o ríspido sol do meio-dia,
me desmorono diante dela, e tonto
bato a porta de ser ontem alegria.

O silêncio transborda pelo forro.
E eu já não sei o que fazer de tanto
passado vindo em busca de socorro.


(imagem retirada da internet: gaudí, casa batló)

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Antonio Carlos Secchin por Fabio Coutinho

O mundo como proposta




Após quatro décadas de magistério, as duas últimas como professor titular de Literatura Brasileira da Faculdade de Letras da UFRJ, Antonio Carlos Secchin acaba de anunciar sua aposentadoria do serviço público federal.
Para marcar o fato, expressivo grupo de amigos, colegas e alunos fez publicar um livro, de circulação restrita, intitulado
ESCRITAS E ESCUTAS. Na obra, editada sem o prévio conhecimento do grande mestre, figuram depoimentos e a mirada crítica de alguns nomes exponenciais da vida literária de nosso país, intelectuais da estatura de Ivan Junqueira, Cleonice Berardinelli, Sânzio de Azevedo, Cláudio Murilo Leal e tantos mais.
Mas há, também, a palavra espontânea de discípulos que, a exemplo de Flávia Amparo e Gilberto Araújo, se beneficiaram, em sua passagem acadêmica, das lições e ensinamentos de Secchin, que jamais deu uma aula sem prepará-la com a profundidade científica que gostaria de merecer, caso fosse ele o aluno. E tal rigor se reflete na qualidade e na transparente sinceridade das manifestações discentes, todas convergindo para o reconhecimento da alegria e do privilégio que consistiram em ter um professor tão culto, erudito e generoso na transmissão do saber acumulado.
Em 2004, aos precoces 52 anos, Antonio Carlos Secchin ingressou na Academia Brasileira de Letras, tornando-se, então, seu mais jovem integrante. Só muito recentemente, transferiu a honraria ao escritor Marco Lucchesi, que foi eleito para a Casa de Machado de Assis aos 48 anos incompletos.
Além de festejado docente de Literatura Brasileira, Secchin se destaca, no cenário cultural pátrio, como poeta, ensaísta e organizador de edições. Sua interpretação da obra cabralina foi considerada, pelo próprio João Cabral de Melo Neto, como a que "melhor analisou os desdobramentos daquilo que pude realizar como poeta".
No curso da vida, em paralelo a tantos afazeres e dedicações profissionais, Secchin se tornou, ao lado de seu saudoso confrade José Mindlin, um dos maiores bibliófilos do Brasil, havendo publicado um utilíssimo Guia dos Sebos, que já caminha para a sexta edição. Como lembrado pelos organizadores na afetuosa Apresentação, citando célebre passagem machadiana, "O mundo não nos é dado, o mundo nos é proposto." Antonio Carlos Secchin soube sempre dignificar, em sua trajetória de intelectual público, as diversas faces da proposta vital que recebeu, sintetizada no criativo ex libris LITERARUM VINCITUR PACE.
Deparei, nas páginas do precioso opúsculo de louvor, com referência de Cristina Secchin ao fato de o homenageado ser um apaixonado torcedor do Botafogo de Futebol e Regatas. A revelação de tal circunstância, apenas uma partícula do afeto exposto pela querida irmã, não chega a abalar a elegância da homenagem que, com plena justiça, imenso respeito e maior admiração, vem de ser prestada.