Por que me deste dois pés de esponja,
se sabias que o caminho era pantanoso?
Por que me deste este desequilíbrio,
este perigo de alto mar ao atravessar a rua?
Esta saliva de areia,
este estômago que digere a si próprio
este nervo exposto,
esta memória feita de cobogós?
Por que me fizeste
com estatura pequena,
eu, que tenho um metro e oitenta?
Por que não terminaste meu rosto
que só tem um lado
e, por isso, não posso dar a outra face?
(
A máquina das mãos, 2009)
Sou máquina que cospe eternidade,
as linhas aqui não gemem,
os pontos imaginários não se pegam,
tudo é exatidão de tempo recortado.
Não há antes nem depois da fixa foto,
apenas o gesto do imóvel limite,
a faca do tempo com que me corto,
a vida mesmo kodak que me demite.
( Eterno passageiro, Brasília: Varanda, 2004)
imagem retirada da internet: otto dix
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| Otto Dix |
Máquina não existe que faça fino
o ato de viver,
que torne a vida mais branda.
A única máquina que a vida conhece
é a lima que se percebe na seca pele,
o destino certo e fatal
para o qual a máquina,
voraz de matéria humana,
foi construída: o estômago do tempo.
(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)