quinta-feira, 20 de maio de 2021

Carta para a mãe, poema RCF




Por que me deste dois pés de esponja,
se sabias que o caminho era pantanoso?
Por que me deste este desequilíbrio,
este perigo de alto mar ao atravessar a rua?
Esta saliva de areia,
este estômago que digere a si próprio
este nervo exposto,
esta memória feita de cobogós?
Por que me fizeste
com estatura pequena,
eu, que tenho um metro e oitenta?
Por que não terminaste meu rosto
que só tem um lado
e, por isso, não posso dar a outra face?

(A máquina das mãos, 2009)

domingo, 16 de maio de 2021

O passageiro de papel, poema RCF








Sou máquina que cospe eternidade,
as linhas aqui não gemem,
os pontos imaginários não se pegam,
tudo é exatidão de tempo recortado.

Não há antes nem depois da fixa foto,
apenas o gesto do imóvel limite,
a faca do tempo com que me corto,
a vida mesmo kodak que me demite.




( Eterno passageiro, Brasília: Varanda, 2004)

imagem retirada da internet: otto dix

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Estômago do tempo, poema de Ronaldo Costa Fernandes

Otto Dix




Máquina não existe que faça fino
o ato de viver,
que torne a vida mais branda.


A única máquina que a vida conhece
é a lima que se percebe na seca pele,
o destino certo e fatal
para o qual a máquina,
voraz de matéria humana,
foi construída: o estômago do tempo.



(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)