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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Escola, poema

 






Quando fui me buscar na escola, 

não havia mais menino.

Um dia, quem sabe, 

aprenderei a matemática das horas,

a geografia cheia 

de acidentes do meu corpo,

e a geometria da mente 

fazendo do que sonhei e

do que sou retas

que nunca se encontram.







terça-feira, 23 de junho de 2026

Fuga, poema RCF










Quem inventou a medida do palmo
queria ter o mundo em suas mãos.

As palmas me causam horror:
o ato vazio de nada pegar.

Tudo no rio me remete
à fuga: o escorrer quase cismático

 
(do livro A máquina das mãos, Rio, 7Letras, 2009)
 
imagem retirda da internet: otto dix

domingo, 13 de março de 2022

Demônios de Bosch, RCF








Há morte e morbidez no amor:
insiste em fixar o momento.
Desconhece o tempo
com seu casaco de rumores.
Desconhece que só o tempo
e a morte – a morte com sua nudez,
porque a verdadeira roupa
é a veste dos vermes – são eternos.

Meu amor vegetal cresce feito unha,
independente, suor exorbitado.
Faz dos meus olhos duas órbitas
que giram ao redor do ser amado.

Quando menos nos damos conta,
o amor fez soma,
no quadrado do quarto,
diminuímos de tanto fluido,
o suor e o sêmen:
duas equações líquidas.

Amor é múltiplo de dois.

Sou todo argila.
Quando meu amor
me soprará a divina existência
de outra boca em minha boca?
Todo homem tem seu deserto.
Amar talvez seja compartilhar desertos.
Passos na areia quente
e fugidos da tela do sonho,
presos na garrafa
– lá, de onde não podem escapar –
tampada pelo cotidiano,
os pequenos demônios de Bosch.






(do livo A máquina das mãos, Ed. 7Letras, Rio, 2009)




imagem retirada da internet: bosch

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Rodoviária, poema RCF





Daqui não se parte,
aqui não se chega,
há um tempo imóvel
em toda multidão de pés
de borracha, de pés de ardósia,
de pés mecânicos de escada,
porque aqui o que existe é
redemoinho de gente,
agitação febril que se consome,
o suor diário de cana,
o pastel diuturno da manhã,
a cabeça operária,
o relógio de ponto no pulso.

Nesta Rodoviária não há viagem,
todos estão paralisados numa cidade
operária; aqui mesmo parece ser
o destino e a partida,
vermes no estômago,
no ventre do tempo,
consumindo-se de si mesmo,
a Rodoviária para existir
necessita dessa fornalha de gente
para produzir o calor febril da cidade.
Mas aqui há também ócio
e malandragem – há o eterno
flanêur suburbano, de pente no cabelo,
masca o chicletes do conto do vigário,
os bolsos vazios de trama e promessa.

Aqui há gestantes, despachantes,
amantes, crentes, cantores e desertores.
O que me invoca é a mesmice
dos rostos mulatos desgastando-se
na fotografia 3 x 4 do cotidiano,
na impressão pouco digital
da carteira não-assinada pela vida.

Na Rodoviária, o enxame nada produz,
tudo não passa de zumbido e gás carbônico,
letreiros com os destinos mais amargos,
os exilados de todos os campos e favelas,
de todo bairro popular,
aqui estão para embarcar
não para Taguatinga, Gama, Guará,
Recanto das Emas, Samambaia,
Ceilândia, Riacho Fundo,
mas todos estão embarcando para o futuro,
lá onde não existe hoje,
lá onde não existe passado,
lá onde não existe Rodoviária.



* Da chamada "rodoviária" de Brasília partem os ônibus para as cidades satélites.

terça-feira, 25 de maio de 2021

A máquina das mãos por Carlos Machado




        Maranhense criado no Rio e radicado em Brasília, o poeta e romancista Ronaldo Costa Fernandes já apareceu aqui nesta página na edição n. 126, em julho de 2005. Agora ele volta, graças ao lançamento de A Máquina das Mãos (7Letras, 2009), sua nova coletânea de poemas.
        Naquele boletim de quatro anos atrás, dizia-se que o poeta, andarilho e estrangeiro, seguia em busca do humano, perquirindo, indagando, mesmo sem esperar resposta. Em A Máquina das Mãos, o desassossego é o mesmo, a procura é idêntica. Com domínio ainda maior dos instrumentos, o poeta apresenta um universo real e sufocante, em versos que não foram feitos para integrar "o coro dos contentes". O que se encontra aí é uma poesia de mal-estar, de osso e alma perturbados — como aliás tende a ser toda grande poesia.
        O olhar atento do poeta se mantém voltado para o incessante movimento da vida, representado tanto pelo que acontece nas ruas, no trem, na rodoviária, como as sensações que percorrem o fluxo íntimo do corpo. Desse modo, em cada verso encontra-se um naco de existência, uma gaiola vazia, uma sala de jantar, um relógio de ponto.
Mesmo quando o poema poderia resultar em algo puramente cerebral, o poeta consegue colocá-lo nos trilhos do cotidiano. Veja-se, por exemplo, o poema "Hopper", que alinha considerações sobre os quadros do americano Edward Hopper (1882-1967), pintor realista popularmente conhecido por ter pintado flagrantes do modo de vida de seu país. Na visão de Costa Fernandes, os personagens dos quadros de Hopper somos nós. (A propósito, por causa Dispensar  desse poema, todas as ilustrações deste boletim são pinturas de Hopper.)

                Um procedimento comum nos poemas de A Máquina das Mãos é o poeta partir de um fato particular e daí avançar para um desfecho mais amplo, existencial ou filosófico. É o que ocorre no poema "O Maratonista". O texto já se inicia com uma indagação: "que rumo persegue o maratonista, / avestruz no meio da rua?" E as perguntas se sucedem: "que logra o maratonista nesta longa / jornada dia adentro, / vestido de suor e magreza?" No final, o poema conclui que o atleta "desconhece que o corpo / é que é a pista de corrida da / maratona da vida". Poesia sem truques, sem malabarismos, na justa medida da emoção.
            Como bem destaca o poeta paraibano Hildeberto Barbosa Filho, no posfácio de A Máquina das Mãos, Ronaldo Costa Fernandes está entre os que "sabem tocar o limite entre a falta e o excesso, evitando a obscuridade dita inventiva de um lado e, por outro, a facilidade expressiva, logrando, assim, na cartografia poética, o equilibrado encontro de forma e fundo, de linguagem e conteúdo, de estilo e temática".
              É isso. Degustem, ao lado, algumas das engrenagens poéticas de A Máquina das Mãos. Essa máquina que se lava na "água da alegria", mas se lubrifica com o "azeite do desengano".


imagem retirada da internet: hopper

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Carta para a mãe, poema RCF




Por que me deste dois pés de esponja,
se sabias que o caminho era pantanoso?
Por que me deste este desequilíbrio,
este perigo de alto mar ao atravessar a rua?
Esta saliva de areia,
este estômago que digere a si próprio
este nervo exposto,
esta memória feita de cobogós?
Por que me fizeste
com estatura pequena,
eu, que tenho um metro e oitenta?
Por que não terminaste meu rosto
que só tem um lado
e, por isso, não posso dar a outra face?

(A máquina das mãos, 2009)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

O gato, poema RCF




Resultado de imagem para vivian maier




O gato
garras de adaga turca
passos de pantufa
músculos de mola
mia minha solidão
de pelo eriçado.

O gato
que vive em mim
arranha a razão
se esgueira nos cantos
sem vértebras do pensamento
olhos de gude
a mirar arisco
arreganha os cacos de vidro
na lâmina da boca
até que, sopranista,
me enreda no enredo
do gatuno sonho acordado
do pesadelo felino
em que minha vida torvelinho
na meada do novelo dos meses
a mim transformou o ferino
em bicho animal
em que a jaula não é o apartamento
mas as sete vidas do pensamento.




(A máquina das mãos, 2009)


sábado, 16 de janeiro de 2021

Em torno a uma imagem de Derrida pouco antes de sua morte, poema RCF






Recuso a voz verde de Derrida,
os olhos de estanho,
a pele ausente que pode rasgar-se,
plumagem de pássaro último.
O câncer está prestes a mudar sua pele
– esta, a plumagem de gesso envelhecido,
a pele de terno com que se veste o morto.
Cada vez que respira,
a marreta do matadouro miúdo
ameaça o cérebro filósofo.
Carrega consigo o pequeno cadáver
de fígado, rim ou pulmão
que morreu antes dele.
Logo sairá do cinema da morte.
Entramos numa grande sessão de cinema
que dura vinte, cinquenta ou setenta
anos e, de súbito, em vez de as luzes
acenderem, tudo se apaga.


(do livro A máquina das mãos, 2009)
 
(imagem: chagall)

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

A máquina das mãos no jornal O Estado de Minas


ESTADO DE MINAS GERAIS

André Di Bernardi Batista Mendes



Ronaldo Costa Fernandes marca seu lugar no cenário da poesia contemporânea

A Editora 7 Letras acaba de lançar A máquina das mãos, do poeta, romancista e ensaísta Ronaldo Costa Fernandes. A poesia do maranhense radicado em Brasília transita e percebe o trágico a partir do simples, do cotidiano. Sua áspera letra já nasce torta, desce da descoberta das inúmeras e indissolúveis fraudes de que é feita a tessitura do duro dia-a-dia, que não concede espaço e é, sempre, amplo de controvérsia e clausura. Mas, transido, fortalecido pelo mistério de um olhar extremamente sensível, são grandes os nacos de fascínio que encontra na gravidade que desliza, por exemplo, das telas do pintor americano Edward Hopper: “A vida como um quadro americano/ do qual não podemos escapar”.


Sua linguagem e seu estilo simples atingem façanhas de desnorteios (“Entre o sim e o não/ não existe o talvez./ Entre o sim e o não/ existem as palavras cruzadas’’) e também concede, oferece, com a desfaçatez e o descaramento de um bandido consciente, o estímulo necessário para o primeiro e extremo passo rumo aos desatinos sobre os conhecimentos e desconhecimentos da sempre estranha e inalcançável natureza das coisas. Tudo no seu estado mais bruto. “Eu não aprendo a natureza./ Pergunto uma e outra vez seus nomes,/ e, na chamada, não me respondem.” Pobre leitor, pobre poeta que se debruça, louco para “sabatinar as árvores”, as “buganvílias desavisadas” e as “quaresmeiras duras”.
Não há vanguarda que dê conta do recado no inusitado âmbito poético. O cabresto das instituições, a cara fechada das academias, a moda dita, exige, com seu chicote ridículo, um poema curto, enxuto, low profile. Aí chega um artista, um escritor contemporâneo, e apresenta os seus longos poemas simples, adivinhando, arbitrário, provocativo, que o futuro pode ser um corredor: “Que dia virá o futuro/ com seu longo pescoço de ânsia?”. Pessimista, cínico, Ronaldo descortina um futuro simplesmente branco, branco como uma tela em branco, branco como o papel pode ser apenas branco.
Os bons poetas marcaram um encontro com a vida. E Ronado chegou na véspera. Mas ele também encontrou nestes tropeços a sua boa parcela, a sua cota de danação pelo caminho. Em seu livro, Ronaldo visita os demônios de Bosch (“Há morte e morbidez no amor’’); adula o seu roteiro de esquecimentos (“Tudo é um imenso galpão vazio”); faz poema para e sobre arames (“Há mãos farpadas/ que não ouso tocar”) e não deixa de corajosamente encarar a dor extrema, inigualável, ao tentar decifrar o alfabeto dos suicidas, num dos poemas mais belos e incisivos do livro (“Suicídio é o cano de escape/ com que respiramos,/ a fuga para dentro de si/ como o peixe que pula/ para a prisão do ar livre”).
Não é preciso paciência para ler os poemas de A máquina das mãos. Não é preciso condescender, anuir para encontrar fruição. Dono de um “olfato dos que cheiram a finitude das coisas”, Ronaldo dá notícia dos extremos que sobram. A sua poesia é feita de pequenos intervalos, de portos, de refúgios sempre provisórios. Nestas brechas cabem carros sem gasolina, rodoviárias onde inexiste a delícia da viagem, algaravias desenfreadas, cartas, a dura vida das putas, becos, febres, mormaços, fotografias e a dimensão inexata de uma alma que se revela linear, mas ambivalente, sempre por meio da dor. No ordinário Ronaldo descobre “a agulha da beleza”, para ele, “a realidade só não acusa o inconsciente”, que aí já seriam outros quinhentos.
Os poemas de A máquina das mãos, em sua maioria, padecem de uma melancolia que se justifica na medida em que revelam a face crua do, digamos, real verdadeiro, que, despido das bobagens de um lirismo fácil, revela que qualquer canto quase sempre desafina, que a verdade não existe, que existem margens que impressionam pela brutalidade e pelo desencanto. Entre a falta e o excesso, Ronaldo sabiamente cobra a fatura e aprende a rir de tudo e de si mesmo, deste seu, deste nosso “ato vazio de nada pegar”. Carece de poesia, pode ser leve o breu que nos envolve.
Como bem anotou Hildebrando Barbosa Filho, no posfácio do livro, a poesia de Ronaldo é também feita de “impurezas e epifanias”. A tormenta das estradas fornece um amplo repertório e munição para uma voz que se estende para que, algum dia, algumas janelas e todas as gaiolas se abram. Ronaldo apura o seu olhar e o seu canto poético que pretende ser, apenas, “um caminho entre caminhos”.



A MÁQUINA DAS MÃOS
De Ronaldo Costa Fernandes
Editora 7 Letras, 104 páginas, R$ 28


Canto do castigo
(trecho)

Há dias que não consigo
aprender minha pouca matéria.
Só tenho um ano
repetente, oclusivo, recorrente:
o ano em que me reprovei.
Já fui mais
quando tinha menos corpo.
Se o corpo se alonga,
quem negará que a mente
ganha gordura, extensão e músculos?



imagem retirada da internet: Hopper, summer evening

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

À margem dos rios secos, poema RCF




Sempre me impressionaram os rios secos,
as margens olhando para o leito de areia,
o suposto fluir do que um dia existiu.
Depois, se os rios correm para o mar,
que mar seco é esse para onde corre o rio seco?

Sem a água do rio,
gozo úbere e fértil,
esterilizam-se.

Estão separadas uma da outra
por uma hipótese baixa, central,
ora, se a água
é quem cria os rios,
que fazem as margens desprovidas
de sua função?

As margens são penólopes sem tapete,
ruminando o tempo, a secura, o tear;
são visionárias e persistentes,
sabem que um dia as águas voltarão
e, por isso, entrarão em cio,
recompensadas pelo espetáculo de vigiar o nada,
o pó, o rastro de praia,
o solado de greta de um leito que imita a vida.

(A máquina das mãos, Rio: 7Letras, 2009)

 

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Poema para o suicida, RCF


I

Os exames de sangue
não dizem quantos ml. de ruína
podem acusar o suicida.
O suicídio é quando
o lençol freático das veias
sobe ao leito da pele em punho cortado.

Nunca está atrasado o suicida
pois não há atraso
para a hora aziaga.
Tem em seu relógio
uma bomba
anda sempre afogado
cada rua ou avenida
(anda sempre de pé nos parapeitos)
é a aleia principal do cemitério
dos vivos em que é obrigado
a naufragar a cada manhã.

Se Narciso morreu
se adorando
não se suicidou.
O suicídio é olhar
o lago e ver o fundo
sem ver seu rosto.

O homem não escolhe o suicídio
o suicídio é que o escolhe.
Vê a magreza da alma,
a vida que não é sonho,
o pôr do sol cheio de espinhos
e aí decide nele se alojar.

Suicídio é o cano de escape
com que respiramos,
a fuga para dentro de si
como o peixe que pula
para a prisão do ar livre.

II

Os suicidas – os suicidas
que me perdoem, se tento
entendê-los – quando não
deixam bilhete, falam
escrevem através do corpo,
do corte, do ar envenenado,
do alçapão, da fruta madura
em que se tornaram. O bilhete
final pode até ser escrito,
mas está melhor inscrito
no corpo que sofre a demissão
da mente, esta que já morreu
antes, esta que enforcou o
pensamento, inalou a ideia
mórbida a ideia do fim.
Que outro alfabeto também
usam os suicidas? Além
da carta, lançam a última
frase pelo voo cego dos
verbos na voz passiva, pelo
ponto final, pelo adjetivo
abstrato do gás, pela letra
pela letra retorcida da corda.

(A máquina das mãos, 2009)

imagem retirada da internet: chagall

domingo, 6 de setembro de 2020

A máquina das mãos por Hildeberto Barbosa Filho


by Igor K Marques

Na fatura do poema há os que se encaminham pelas veredas do puro hermetismo, fazendo dos versos um modelo de linguagem cifrada, quase inacessível à leitura mediana dos que freqüentam o território da poesia. De outra parte, há os que se valem de um trovar claro, não raro linear, centrado numa transparência cuja visibilidade da mensagem paradoxalmente obstrui o fluxo das ambivalências estéticas. Mas há, também, os que sabem tocar o exato limite entre a falta e o excesso, evitando a obscuridade dita inventiva por um lado e, por outro, a facilidade expressiva, logrando, assim, na cartografia poética, o equilibrado encontro de forma e fundo, de linguagem e conteúdo, de estilo e temática.
Observando os poemas de A máquina das mãos, do maranhense radicado em Brasília, Ronaldo Costa Fernandes, devo situá-lo nessa terceira via, considerando a persistência deste traço desde os livros anteriores: Estrangeiro (1997); Terratreme (1998); Andarilho (2000) e Eterno passageiro (2004).
Quero crer que em A máquina das mãos permanece e se acentua a tensão do olhar poético diante da realidade que o cerca, constituindo-se, portanto, uma captação lírica em que pensamento e emoção, à maneira do melhor Pessoa, se fundem num inconsúltil modo de dizer típico da apreensão sem complacência, cética, irônica, corrosiva... Veja-se bem: a apreensão que se elabora pela percepção poética não prescinde dos recorrentes paradoxos responsáveis, a seu turno, pela desautomatização do olhar; mas, noutra clave, não prescinde da função crítica, ou melhor, metalingüística, perante os artefatos da linguagem, resultando daí todo um processo técnico-literário de desconstrução estilística em perfeita sintonia com a pluralidade das motivações desse discurso poético.
É preciso ver, contudo, que a desconstrução estilística, em Ronaldo Costa Fernandes, não se assemelha aos metaludismos em que tanto se comprazem certos segmentos da poesia brasileira contemporânea. A desclicherização, por exemplo, presente em alguns títulos de poemas (“Tormenta dos caminhos”, “Delito corpo”, ”A bela da noite” e “Um para todos”, entre outros) e em muitos versos, como que corresponde ao desconforto e ao pasmo da visão lírica, de sua vez, atenta a pormenores, a sutilezas, a coisas, fatos e sensações normalmente invisíveis e impensáveis, apesar do nutriente concreto com que se manifesta.
Não são poucos os versos em que essa nota lancinante, esse conflito seminal, essa tensão pulsiva, esse sabor acre e trivial da vida se entremostram em sua lúcida verdade e em sua estética beleza. Vejamos alguns: “(...) As correntezas são outro / caminho de água / dentro da água”, em “Tormenta dos caminhos”; “O único crime que cometi foi a vida”, em “Delito corpo”; “(...) a verdadeira roupa / é a veste dos vermes – são eternos”, em “Demônios de Bosch”; “(...) Luto comigo / que é uma luta desigual”, em “Luto”; “(...) Estou cansado de pisar na minha sombra”, em “Danação”; “Não existe a noite, / apenas o escuro que me ilumina”, em “A bela da noite”; “(...) Minha ordem não tem progresso”, em “Bandeira”; “(...) As margens são Penélope sem tapete”, em “À margem”, e “(...) deve haver um cemitério de fatos, / lá, onde todas as coisas – esquecidas ou não - / perduram e se repetem”, em “La invención de Morel”.
Poderia citar muitos outros versos, pois é denso o repertório conceitual e imagético dessa poesia onde o dado metafísico e transcendente, já assinalado por alguns críticos, não se transmuta em mero exercício aforismático ou filosofante. Os elementos cotidianos da existência, com seus materiais sólidos e concretos, tendem a eliminar o foco da frouxa abstração, tornando-a algo palpável, pesar de pura cosa mentale, de criação simbólica, de procedimento estético. Tantos poemas parecem brotar desse princípio condutor, o que, sem denegar a consciência do fazer, convoca, em especial, a poesia de Ronaldo Costa Fernandes, para o paradigma do dizer. Paradigma que se cristaliza, por exemplo, sobretudo na tonalidade do coloquial-irônico a que se refere T. S. Eliot, falando de Corbiére e Laforgue, com um poeta como o pernambucano Alberto da Cunha Melo e, noutra perspectiva, na linhagem de estilo mesclado entre o grotesco e o sublime de um poeta do naipe de Lêdo Ivo.
Para se ter idéia do que estou pensando, leiam-se, particularmente, os poemas “Poema para o suicida”, “Férias”, Às putas, “Lições”, “Vício de concreto”, “Aluguel”, “Em torno de uma imagem de Derrida antes de sua morte”, “1984”, “Poema para Fernando Mendes Vianna morto”, “Samuel Rawet” e “Rodoviária”. Leia-se principalmente este, “Churrasco”:

Da minha janela, vejo fornos crematórios.
As pequenas chaminés se sucedem como um i sem pingo.
Da fumaça que lhe escapa
há humor de tédio, carne e sal grosso.
Durante a semana os campos de concentração,
que são quintais,
se mantêm vazios e sem prisioneiros
além das árvores inúteis
que parem sem que ninguém as olhe.

Nos fins de semana,
começa o sacrifício de bois e rins
e a fumaça se evola, em suas cólicas
cinzas, a passagem das horas,
o riso grotesco dos feriados,
o ritual de queima e álcool,
a embriaguez da vida
cuja ressaca é a morte.

É este é o modo de compor de Ronaldo Costa Fernandes: lírico, de lirismo irônico, dotado daquele sentimento trágico da vida; lirismo à Drummond, corrosivo. Realista e alusivo em seus símiles surpreendentes, em suas metáforas feitas de aço e luar, em seus contrastes verbais carregados de impurezas e epifanias.
Ficcionista, ensaísta, mas sobretudo poeta, se focarmos o poeta como o demiurgo da linguagem, como o que guarda, vigia e zela suas formas, movimentos e possibilidades, Ronaldo Costa Fernandes tem lugar merecido, fora dos modismos experimentais e do facilitário confessional-subjetivo, isto é, no espaço da genuína poesia brasileira.





Hildeberto Barbosa Filho, natural da Paraíba, é poeta, professor universitário e crítico literário.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Anoitecimento, poema RCF








Anoitece no meu coração coberto de ervas
e, na luta desigual, cresço com a miséria.
Trens trazem minérios de rumor e tristeza.
Além da janela, homens caçam a manhã,
enterram no lodo o tempo da esperança
e cavam fundo até aparecer o osso do mundo.
Nem mesmo as minhas imaginações servem
na tarde ferida e de tijolos exaltados
para inventar suposta vida
que não seja experiência sem retorno.
A vida como carro desgovernado
a mais de duzentos quilômetros por hora,
em noite chuvosa, numa estrada não sinalizada.
Se ao menos soubesse
o ponto de chegada dos lobos,
não me atormentaria com o tempo
que não tem começo nem fim.








(do livro A máquina das mãos, 7Letras, Rio, 2009)

imagem retirada da internet: Otto Dix


terça-feira, 17 de março de 2020

Fogo fátuo, poema RCF





Que fogo me faz fátuo?
Este músculo retorcido do espírito
é um desembainhar de inventários.
A beleza me fascina,
tempestade de enredos,
remota revelação de que algo
pode ser precioso
sem ser pedra ou metal.

(A máquina das mãos, 2009)

imagem retirada da internet: igor k marques




sábado, 14 de março de 2020

O pio, poema RCF




A tristeza tem muito de celulóide:
coisa antiga que parada a máquina
se desmancha ao calor das lembranças.
O pio que ouço é pio da morte.
Mas se a morte é silente
como ouvir o que não é mais presente?
como escutar o som do que não se ouve?


O pio desse pássaro
só é emitido por ave em certo cativeiro.
Por isso, pia em outra freqüência:
só escuta quem tem anatomia
que otorrino nenhum alcança:
aquele que o labirinto do ouvido
invadiu outros hemisférios
fez de ouvido o pensamento
fez som onde reina o silêncio
fez do crânio um cativeiro.




(do livro A máquina das mãos. Rio: 7Letras, 2009. Prêmio de Poesia 2010 da Academia Brasileira de Letras)


(imagem retirada da internet: s/crd.)

segunda-feira, 2 de março de 2020

Coração, poema RCF



Arte | Antonio Lee
Antonio Lee


Meu coração é um bicho
que coaxa dentro de mim
às vezes se acanha
outras dispara seu relógio de sangue.
Meu coração não sabe dançar:
quando começa seu descompasso
pisa no pé das minhas dores.
Ora late como cão
sem corpo ou rabo
ora lembra caixa vazia
um oco no sem jeito no peito.
Meu coração tem sua ginástica
corre mais que o dono
quando a hora é escassa.
Meu coração é um fole
que mal se enche
logo se esvazia.
Meu coração tem estômago fraco
não é bom da cabeça
tem mania de grandeza
quer ser melhor do que é,
embora saiba que, preso,
não tem pernas pro que der e vier.
Meu coração tem vocação militar
por isso marcha rubro
no mesmo lugar
como um recruta punido.


(do livro A máquina das mãos, Rio: 7Letras, 2009)



imagem retirada da internet: magritte

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Férias, RCF





Aqui, quieto em meu canto
sem mexer-me, olhando a luz higiênica do sol,
penso na inutilidade cansativa de malas e hotéis
para divertir-me nas férias estrangeiras.
Não, só preciso da vontade,
nem sempre firme,
um vento estradeiro,
um alarde distante de pássaros
e nada além do meu corpo.



(do livro A máquina das mãos, 7Letras, Rio, 2009)


imagem retirada da internet: miró


segunda-feira, 17 de junho de 2019

Delito do corpo, poema Ronaldo C. Fernandes





Igor K Marques
Por que certos amores
insistem em não envelhecer?
Por que alguns amores permanecem
como a mancha que nenhuma lavanderia apaga?
Não se vergam ao tempo
feitos de flandres humano,
não oxidante,
flébeis e olorosos
igual à matéria de jardinagem
que adubasse flores de carne?

Meu querer se sujeita ao alumínio,
dúctil, se muito dobrado, rasga.
Meu corpo é ainda mais frágil
que o alumínio: se ilude em ser papel.
Quando puder,
escritura de minha posse,
doarei minhas pernas
ao asilo das cadeiras
e minha cabeça
aos vagões soturnos do metrô
que passam vazios
e não param na estação
porque não há ninguém para descer,
não há ninguém para subir.

Tive uma paixão – esta sim –
que cumpriu o ciclo vulcânico:
explosão, lava e, ao final,
Pompéia soterrada.
Guardo o real amor como um lenço
que volta sem uso para casa.
Quem sabe algum dia
a loucura arranque
o que não ousa nascer,
o que sobrevive morto,
e o amor outra vez
se aliste na tropa do meu corpo?
O único crime que cometi foi a vida.






(do livro A máquina das mãos, Ed. 7Letras, Rio, 2009)



segunda-feira, 20 de maio de 2019

Lamento do menino triste, poema RCF






O azeite ainda se agarra
às paredes do frasco depois de esvaziado.
A água, leve, esvazia-se rápido,
às vezes até evapora, e não deixa resíduo,
nada se gruda à parede do frasco.
Ó mãe, faz permanecer em mim a água da alegria
e me livra do azeite do desengano.




(do livro A máquina das mãos, 2009, Ed. 7Letras)
 

terça-feira, 16 de abril de 2019

HOPPER, poema RCF












Em Hopper, não há a solidão que todos dizem.

Aquele casal na lanchonete,
as moças no quarto
ou no vagão de trem
estão imobilizados de vida
– de vida tão grave
que nada escapa (como nos buracos negros)
de seu campo de gravidade.

Ali estão os autômatos de Hopper
em sua fantástica viagem em torno de si mesmo.

Não é a vida americana
que é criticada.
O que nos desnorteia em Hopper
– e nos fascina –
é que nos vemos na lanchonete,
na parada de ônibus ou no vagão de trem.
Estamos imobilizados – hopperianos –
em têmpera e colorido,
fixos na tela do tempo,
e, irremediavelmente, presos a nós mesmos,
a vida como um quadro americano
do qual não podemos escapar.     

(do livro A máquina das mãos, 7Letras, 2009)

(imagem retirada da internet: Hopper)