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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Férias, RCF





Aqui, quieto em meu canto
sem mexer-me, olhando a luz higiênica do sol,
penso na inutilidade cansativa de malas e hotéis
para divertir-me nas férias estrangeiras.
Não, só preciso da vontade,
nem sempre firme,
um vento estradeiro,
um alarde distante de pássaros
e nada além do meu corpo.



(do livro A máquina das mãos, 7Letras, Rio, 2009)


imagem retirada da internet: miró


quarta-feira, 1 de maio de 2019

O desperdício, conto RCF



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O pensamento é longo. O diabo do pensamento não tem paredes. Quanto mede a obsessão? Ele era composto por músculos, humores, líquidos e obsessões. A obsessão dele era a sobra. O mundo não podia ser restante. Deveria ser exato como soma.
         O que ele não sabia era se a morte podia ser considerada desperdício. É certo que, durante a vida, desperdiça-se muito. E que este desperdício cessa com a morte. Mas a questão não era para ser posta desta maneira. E, sim, se, depois da morte, o corpo era mais desperdício do que em vida. Ou seja, em outras palavras, não interessa se o morto não desperdiça, mas ele queria saber se entre o corpo morto e o corpo vivo, qual deles se desperdiça mais?
         Depois, obviamente, de vigiar os desperdícios ordinários como água, papel, luz, chamadas telefônicas – não só seus desperdícios, mas o desperdício alheio, na maioria das vezes, gerando discussões, caras fechadas, vizinhos que cortaram relações, a família que o marginalizara, uns chamando-o de excêntrico, outros de inconveniente – o certo é que chegou a uma conclusão impeditiva: o pensamento também desperdiçava. Era preciso eliminar o pensamento mecânico, cotidiano, ordinário, desnecessário e, certamente, perdulário.
         O pensamento perdulário era o lugar-comum, as ruminações automáticas, o raciocínio viciado. Para evitá-los havia de fazer um esforço sobre-humano e, mais ainda, treinar a mente. O pensamento que não se desperdiça, logo, deveria ser o contrário. O que trouxesse novidade, luz, idéia transformadora ou mesmo disparatada, deveria ser visto como pensamento inquieto e ousado. Ou melhor, um pensamento não perdulário, um pensamento econômico.
         Ele, afora a discussão interna sobre quem desperdiçava mais, se o corpo vivo ou o corpo morto, decidiu vigiar também o desperdício da vida. O difícil era delimitar o que era vida excessiva. Não lhe interessava considerações e coros alheios. Ele se perguntava o que podia cortar em sua vida para que não desperdiçasse.
         Deitar-se, alimentar-se pouco, somente pensar o necessário e útil, imprescindível, o pensamento raro, não, não era a saída. A cama poderia também ser vista como desperdício horizontal. Poderia aprisionar-se. Mas o corpo necessitava de energia, músculo, excrescência – os corpos, visivelmente exteriores, são feitos de excrescências, vejam os membros, há excrescência mais significativa e simbólica do que os membros?
         O trabalho era desperdício, ora se não, já o havia abandonado fazia tempo. O trabalho é um mecanismo de relógio, músculo de horário, roldanas feitas de veia e sangue, o sujeito desperdiça a vida atrás de uma mesa. Não conseguia pensar no trabalho sem que a imagem de uma mesa devorando-o, infectando-o de cupim e papel, tornando sua pele seca, sugando-lhe a seiva mínima da dignidade, o invadisse de forma inquietante. O trabalho rotineiro era invenção não do diabo, mas de um Deus patrão.



(Manual de Tortura. Contos, 2007)

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

O ônibus do corpo, poema RCF




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Todos os órgãos
trazem um cronômetro.
Alguns são apenas passageiros
conduzidos pelo ônibus do corpo.
Eles também têm sua rota,
suas paradas, sua quilometragem.
A pior tormenta
é aquela dos nervos:
a árvore da certeza desaba,
o rádio dos pensamentos emudece,
o quarto das emoções destelhado.
O nascimento é um minuto
de gozo dos pais.
Um jorrar de vida,
um frêmito líquido.
Viver, contudo, não é gozo,
mas, sim, descuido, frêmito seco,
o ciclo se fecha: o escuro pare o ponto final.

(do livro Memória dos porcos. 2012)

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Testamento, poema RCF


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Tudo o que tenho está em papel passado.
Lavro meu testamento
que é uma terra feita de papel.
Os inéditos doo ao anonimato,
os publicados para os sebos.
Meu corpo enterrem
na lembrança
cuja terra é fofa
e o que nela está logo se decompõe.



(do livro Memória dos porcos. Rio: 2012)



 (foto:vivian maier)