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sexta-feira, 6 de março de 2026

Anatomia do pó, poema RCF











I

Essa invisibilidade me corrompe.
A que espécie de tédio pertence o pó?

II

O grão do pó se materializa
em camadas de memórias abandonadas.

III

Pele porosa de terra.
Superfície sobre superfície.
Um bicho de duas peles.

 


 
(Eterno passageiro, 2004)
 
imagem retirada da internet: vermeer


segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Lição de desastre, poema RCF




Pode o verão dizer orfandades?
No quadro-negro,
o risco é meu equilíbrio.
O enxame dos segundos
varíola minha lições de desastre.
Não sou insular,
sou arquipélago,



terça-feira, 5 de março de 2024

Cine Éden, poema RCF



No cine Éden, hollywood da Rua Grande,
a leste de coisa alguma,
o mundo tinha a dimensão de
seis metros estirados de pano.

As janelas abertas deixavam ver o céu
como se fosse a tela e os astros
representassem piscando os olhinhos
de gás das estrelas.

Cleópatra se sentava na cadeira de madeira
depois de servir o jantar aos patrões.
E Marco Antônio,
o filho da puta do Marco Antônio,
tinha as mãos calosas de pedreiro.

Ó tempo das imagens fugidias,
o mundo como um grande rolo,
a lata de lixo da História
estava cheia de papel amassado dos bombons Pippers.
Que viveremos nós depois do
the end da História?


( Eterno passageiro, Ed. Varanda, 2004)



sábado, 14 de agosto de 2021

Aula de física, poema RCF





O pêndulo é suspenso pela dúvida
que transforma em dois o que é um.
O pêndulo e seus braços
que marcham sem sair do lugar.
Seguro à dúvida,
não sou dois nem um,
marcho parado,
sem conta que me dê jeito,
sem física que me conforme.




(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)




imagem retirada da internet: chagall

domingo, 16 de maio de 2021

O passageiro de papel, poema RCF








Sou máquina que cospe eternidade,
as linhas aqui não gemem,
os pontos imaginários não se pegam,
tudo é exatidão de tempo recortado.

Não há antes nem depois da fixa foto,
apenas o gesto do imóvel limite,
a faca do tempo com que me corto,
a vida mesmo kodak que me demite.




( Eterno passageiro, Brasília: Varanda, 2004)

imagem retirada da internet: otto dix

segunda-feira, 4 de maio de 2020

A construção da ponte, poema RCF




A ponte mostra sua corcova de pilotis,
espinha dorsal pronta para receber
a peridural de cimento,
o aço que anestesia.

A ponte assim descarnada,
pura estrutura,
no compasso ainda da prancheta,
ansiedade das margens que se esperam,
a ponte é um feto de ferro
em sua placenta esparramada de água.




(do livro Eterno passageiro. Brasília, ed. Varanda, 2004)

domingo, 17 de novembro de 2019

A arte do corpo, poema RCF






Numa dessas Bienais de São Paulo,
vi de longe, sozinho, passarinho,
o poeta Mário Quintana.

Durante anos a imagem – peixe azul – me perseguiu.
Por fim, entendi a recorrência:

Mário Quintana era móbile,
magra body-art,
andar performático,
existência conceitual,
em seus parangolés de ossos e calvícies,
em sua lígias & papes
de velho movido a arame,
seu corpo virtual,
ali, entre os cimentos desarmados do Ibirapuera.

 
(do livro Eterno passageiro, 2004)
 
imagem retirada da internet: mario quintana

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

A chuva, poema RCF


Resultado de imagem para radu belcin




Caso morra, estarei barbeado e limpo,
como quem se higieniza para o amor
– não que a morte seja rito,
embora deva ser engravatada
e sonolenta como o morto se veste a rigor.
A rigor, a morte é higiênica.

Tua morte não aguda,
perpendicular,
garoa que perseguisse
o clima aziago do coração:
morte permanente e múltipla
a morte tem suas manias,
e o morto a idiossincrasia
de viver na memória dos outros
como uma chuva
que chovesse sem molhar.








(do livro Eterno passageiro. Brasília: Varanda, 2004)





terça-feira, 6 de novembro de 2018

Ventre frio, poema RCF


Resultado de imagem para vivian maier

O galo no meu jardim é uma planta de penas,
move sua crista em flor na inquietude verde.
As frutas azedam a existência pendurada.

A geladeira agasalha fragmentos dispersos de vida.
Uma coxa de galinha, meia garrafa de suco,
carne gelada do não,
ali, no ventre iluminado e frio,
a vida se dá nos pêssegos cortados
como fetos em conserva.

(Eterno passageiro, 2004)
 

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Fleuma do sangue, poema RCF



Resultado de imagem para vivian maier


Onde estará o pensamento do sangue,
o temperamento da carne, a alegria dos pelos,

a melancolia dos vegetais – em mim
ou na capacidade das coisas de existir com humores?

 
 
(Eterno passageiro, Brasília: Ed. Varanda, 2004)
 
 

sábado, 13 de outubro de 2018

Queda, poema RCF




Por que me perturba tanto
o alvoroço da imaginação
que, pombo sem asas, farfalha
dentro da gaiola improvável?
Pés imponderáveis navegam a ponte
entre a obsessão mole e a realidade dura.
O que existe entre uma e outra
é o único e obsessivo dente
que mastiga a carne pouca da razão,
suspensa por um ó de eletricidade e queda.

Todo ser é viagem incriada.
Sei que nenhum escape
é mais brutal que a realidade
e que não se pode arquivar a vida.

No livro-tombo,
inexatidão e inconsistência,
registro do pó,
sou apenas uma companhia limitada
que não se firma.

(de Eterno passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)
 
imagem retirada da internet: francis bacon