quarta-feira, 27 de outubro de 2021

O pomar da renúncia, poema RCF




Lasar Segall é tema de duas exposições na Chácara Lane ...
Lasar Segall


Há cinco anos que não te ouço mais 
embora continues a falar nos interstícios 
do morse do cotidiano
que pontilha aqui e ali o staccato de passos.

Que voz é essa, 
de outro macerado tempo,
que rompe os diques,
encharca a terra com sementes úmidas?
Que voz, sopranista voz, me assalta 
os ouvidos da renúncia,
a taciturna travessia intramuros?

Limbos nascem nos pés das árvores 
e brotam nuvens de alvoroço.



(do livro Matadouro de vozes, 2018)


terça-feira, 26 de outubro de 2021

Zoologia da vida e da morte, O difícil exercício das cinzas


 

A vida e a morte
não deveriam ser femininas.
Não há nada mais neutro 
e pessoal a uma só vez.
A vida é híbrida
como  mula
e a morte é de dois gêneros,
comum e anfíbia,
um jacaré que habita
a água da escaramuça
e sobrevive na terra da surpresa.
O homem é também anfíbio:
regurgita na placenta das casas
e se oferece à ambulatória morte
em cada palmo de terra que pisa.
A mesma condenação dos rios
que não logram fugir do seu destino.



(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio, 7Letras, 2014)


segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Pulsações, poema RCF







Não sinto a pulsação dos muros, 
a umidade das horas.
Não sinto minhas pernas,
erguidas pelo mistério
dos anos. 
Não sinto as veias abertas
de nenhum corte de gás no pulso.
Não mergulho mais
na liquidez dos bares. 

O dia amortece solene
a cobiça do tempo 
com seu passo de marcha militar 
e morbidez das poças.



(do livro Matadouro de vozes. Rio: 7Letras, 2018)