domingo, 1 de fevereiro de 2026

O sagrado e o profano, poema

 

 

 


 

 

 

Entre os versículos

de que mais gosto

estão os do profeta

Carlos que foi um anjo torto.

 

Os salmos são

os de Andrade

que recitam o desvario

da cidade

e a gota de sangue

que pinga em cada aleluia.

 

Meus cânticos

são do jardineiro

Charles que cultivava

rosas do mal.

 

O meu Cântico dos cânticos

é o do cantor cego:

Homero ou Borges:

um cantou a guerra,

outro Ulisses sem mastro

ou cera de abelha

para cair na tentação

das bibliotecas.

 

Minha bíblia

é um evangelho

segundo João,

não o Batista,

mas o do Recife,

primo de Manuel,

neto de outro Cabral.

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 18 de janeiro de 2026

Fauna, poema RCF











Não sabe que bicho é.
Não sabe a que espécie pertence.
Se à imobilidade das árvores
sem frutos, de raízes tortuosas
ou se à categoria das plantas
que se expandem sempre agarradas.

Desconhece se faz parte
dos liquens, dos musgos, dos lodos
e de outros excessos de ruína
ou se sua categoria
se classifica entre os bichos que existem
sem que ninguém os note,
e, sem serem notados,
devastam o homem.

É bem provável que faça parte
dos tubérculos e que rume
para dentro da terra
e finque raízes aéreas
– expostas ao desdém dos outros –
e quanto mais amadurece
mais fundo e incógnito
se enterra vivo.



(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


 (imagem retirada da internet: El Lissitzky, self-portrait.jpg)

sábado, 17 de janeiro de 2026

Cantaria e suas pedras

 


 

 

 






 

 

As pedras de cantaria

estão surdas e mudas.

Ainda ouço o tambor de crioula

que me embalava nas noites brancas.

Não posso viver

– viver é uma palavra perigosa,

tem muita visão do passado

e do infinitivo

que é parente do eterno –

no efêmero.

Penso nas ladeiras

de minha terra

que são uma metáfora da vida.

Nos cantos e becos

que são auditivos e sem saída.

Um dia viverei

numa cidade sem ruas

– labirintos da alma –,

sem praças – a festa coletiva –,

sem casas – úteros de alvenaria.

Estarei então morto

– uma cidade sem homens.