quinta-feira, 5 de outubro de 2023

A quinta estação, poema

 


 

 


 

 

 

Fui avaro com os verões;

gostaria de ter escaldado

mais as nervuras dos dias densos,

esfarelados como areia do tempo

na ampulheta vertiginosa

das veias que viadutam

em mim

como mariposas à luz

dos meus nervos.

 

Há uma quinta estação

que inverna meus pensamentos,

deixa cair as folhas A4

do outono de minhas renúncias

e primavera minha memória

qual brotos que espocam

à superfície da pele das horas

e em mim

reverbera a estação do fim.

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Minha memória se estilhaça em pedacinhos, poema

 


 

 


 

 

 

Um grande passo

para minha humanidade

andar no meu lado escuro

quando estou de lua.

 

Deus deve morar nos interstícios,

por isso juntar os restos

é uma coisa divina.

 

Religiar é um verbo

para os restauradores,

então me religio ao colar

os estilhaços do meu pensamento.

 

 

 

 

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Nove anos na Venezuela, poema

 


 


 

 

Há muito de migrante

em minha roupa;

os paletós de cinzas

e os sapatos da inquietude.

Tudo me move e imobiliza;

navios negreiros da infâmia

me embarcam na manhã nublada.

Recuso o passaporte

da terra seca da ambulância;

difícil sonhar em outra língua

quando o exílio invade

a temperatura do presente.

Dois rios que não se misturam

(como o Negro e o Solimões)

formam a fronteira

do meu desterro.

Escrevo em língua madrasta

e meu destino passa a ser

um trem que não para em estação alguma.