domingo, 2 de maio de 2021

Les morts, poema Os mortos, tradução francesa de Manuela Colombo

 


Les morts

Tous les morts sont un seul mort,
tout mort est tous les morts.
Chaque mort est une métonymie ensevelie.
La splendeur dorée des églises
me dit que Dieu a ordonné
que le paradis soit d'or,
lui qui a tant aimé faire
les choses terrestres à l'égal des choses divines.
Ou l'homme est-il seulement à Son image et ressemblance ?
Et l'enfer est-il à l'image et ressemblance de la terre ?
Là, dans cette splendeur dorée,
sont mes morts,
silencieux, étonnés
sans comprendre combien douloureuse
était cette soi-disant vie.
https://lyricstranslate.com/en/os-mortos-les-morts.html

Tradução: Manuela Colombo

Exílio, poema RCF



 imagem | hreinn friöfinnsson


Quando nasci, me exilei.
Nascer foi uma guerra,
com sangue, suor e lágrimas.
A porta da rua
– minha fronteira –
faz de casa minha pátria.
Fora dela , vivo na ilegalidade.
Ao fim do dia, me tranco
no meu campo de refugiado.
Sei, contudo, que só estarei
em total privacidade na morte.
Estou farto de revistar
minha  alma clandestina.
Me contrabandeio
cada vez que passo
na aduana da rotina.
Tenho medo de que não carimbem
o visto de entrada na vida.
Amanhã lerei o jornal
– dossiê das violências –
que não traz o nada consta
da minha vazia existência.




(Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


(foto: hreinn friöfinnsson)



quinta-feira, 29 de abril de 2021

Diálogo entre Setembro e Outubro, O difícil exercício das cinzas






Perguntei a Setembro por que ele era um mês triste.
E ele me respondeu que Fevereiro
tampouco é fanfarrão e antiescolástico,
pois se aqui é carnaval,
há seis meses de noite no norte do mundo,
que é uma árvore que parte do ano planta bananeira.

E ainda me disse Setembro:
os homens são meses, alegres ou tristes,
cumprindo o calendário das soturnidades,
faça domingo, faça dia de semana,
feriado do corpo ou útil da alma.
Assim Setembro se retirou,
como soe acontecer com os meses,
e fiquei pasmo a mirar  folhinha apática e muda
até quando Outubro surgiu túrgido e obeso
e cuspiu a exasperante interrogação sobre males e descampados.


(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)