Mostrando postagens com marcador A máquina das mãos.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador A máquina das mãos.. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Realidade, poema RCF



Resultado de imagem para plutenko pintura



A realidade nega consórcio e condomínio:
cada um é dono do seu desatino.
A realidade tem lá seu espelho
de água que narciso algum
ousa mirar com medo de não se ver.

A realidade só não acusa o inconsciente,
que é outra realidade dentro da realidade,
lá onde há algaravia desenfreada,
mundo de sombras mesmo ao meio-dia,
refúgio de cães danados, cela dos desesperados,
desejos da loucura, a razão sem razão.

A realidade tem realidade
que a própria realidade desconhece.

O sentimento sentadinho na cadeira dos réus.



(do livro A máquina das mãos, Rio de Janeiro: 7Letras, 2009)



sexta-feira, 6 de agosto de 2021

O beco do corpo, poema RCF




A febre faz mormaço no meu corpo.
As juntas discordam
o bípede que hospedo.
Mínima queda de braço
derruba o dedo levantado da presença.
O que é víscera
se comporta à flor da pele onde nada medra.
Este calafrio responde ao calor
que insiste em tremer
o que se paralisou.
Nenhuma aspirina cura meu quebra-cabeça.



(do livro A máquina das mãos, 7Letras, 2009)



imagem retirada da internet: julianery

domingo, 6 de setembro de 2020

Crítica de Sérgio de Sá sobre A máquina das mãos

Sérgio de Sá
Correio Braziliense
Recebo em casa e leio na contracapa o poema intitulado “Hopper”. É o suficiente para voltar ao forte e imobilizador impacto (como se diante de um quadro de Edward Hopper) sempre provocado pela poesia de Ronaldo Costa Fernandes (foto), que está de livro novo, com título de ressonância drummondiana: A máquina das mãos (7Letras). Autor de outros quatro volumes de poesia e uma série de obras em prosa, Ronaldo escreve porque precisa sobreviver, porque não poderia ser diferente, escreve porque do contrário não haveria existência. A poesia de Ronaldo oferece a cabeça do leitor em bandeja de prata, tira-lhe do prumo, sufoca, faz respirar, angustia, abre o sorriso em meio a um humor despedaçado, triste, melancólico.
Ronaldo faz poemas legíveis sobre uma erudição sem tamanho, submersa na paisagem desoladora da vida urbana. No posfácio, Hildeberto Barbosa Filho diz que Ronaldo toca “o exato limite entre a falta e o excesso, evitando a obscuridade dita inventiva por um lado e, por outro, a facilidade expressiva”. Equilibra-se, portanto, na corda bamba entre a experimentação e a comunicação.
Escreve sobre as cidades de modo geral e sobre Brasília em particular. Em “Lúcio Costa”, pergunta: “São de rodas teus sonhos?/ Há eixos e tesouras na utopia?/ De que material é feito o desejo/ Existe forma no escape, na fuga, na evasão das avenidas?/ Os aviões com sua turbo-hélice obsedante/ A cidade redonda sem círculo que a encerre”. E a mão continua certeira em “Torre”, “Samuel Rawet” e “Rodoviária”. Ronaldo também escreve “Poema para o poeta Fernando Mendes Vianna morto”.
O que mais esperar da poesia senão essa queda no abismo? A máquina formata os versos que já são pensamentos. As mãos tremem para repetir no papel a mente “que quer ser corpo e que dói”. É dolorido ler os poemas projetados por essa tecnologia humana que luta contra as asperezas da vida sem nunca deixar de senti-las.
Se a poesia ainda fizesse sentido, se ainda mexesse nos sentimentos do mundo, Ronaldo Costa Fernandes seria um bambambã, em seu sentido de autoridade. Remexe dentro da língua e da linguagem, traz novos significados para esse marasmo sem chuva, leva o leitor para dentro de um corpo que somente a poesia promete: coração dilacerado pelo que poderia ser mas não é, pelo rito do nascimento-e-morte, pela sede de saber que o tempo está passando e vivemos tão pouco, tão mesquinhamente, tão perto do afeto de sermos sós e tão pouco. O leitor agradece que Ronaldo cometa o “delito da poesia”, uma poesia que dá cãibra, colocando-nos em outro lugar, distante, dormente e, ainda assim, doce.


O BECO DO CORPO
A febre faz mormaço no meu corpo.
As juntas discordam
o bípede que hospedo.
Mínima queda de braço
derruba o dedo levantado da presença.
O que é víscera
se comporta à flor da pele onde nada medra.
Este calafrio responde ao calor
que insiste em tremer
o que se paralisou.
Nenhuma aspirina cura meu quebra-cabeça.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Barcelona, poema RCF




Sento-me no café,
a placidez da praça com seus pombos,
a inexatidão do foco das nuvens,
o amargo do adoçante,
e a canção pedinte de um acordeão.
Percebo que não estou no estrangeiro
nem que falam em língua catalã,
aí compreendo que sempre estive sentado num bar
e que a multidão passa, indiferente e pedestre.

Na cidade velha, Cervantes
morou de frente pro mar
– quem sabe não chegou a pensar
em Dom Quixote como marinheiro?
Ruas tortas de Miró e Gaudí
amolecem as molduras das janelas
fechadas para se protegerem
de tanto peixe e dentes solares.
O mapa de papel nunca existe
antes de eu desenhá-lo
com o papel mais fino da memória
e estrias de pés alucinados.
Neste café, estive moído
cada grão de pesar
esmagado na trituração
do bairro velho que me habita.



(A máquina das mãos, 2009)
 
imagem retirada da internet: gaudí

quinta-feira, 23 de julho de 2020

A natureza das coisas, poema de A máquina das mãos





Eu não aprendo a natureza.
Pergunto uma e outra vez seus nomes,
e, na chamada, não me respondem.
Sorriem com seus dentes fluidos e roxos,
e desejam a ausência do verde
que tudo iguala e nada revela.
Queria sabatinar as árvores,
mas elas se queixam de solicitude.
Queria dizer meu Deus às plantas,
embora o silêncio enraizado
e o berro contido das raízes
se emaranhem na minha pobre cabeça.
Entre um arbusto e outro,
há um código morse de olfatos
que não consigo decifrar –
a natureza me telegrafa um passado de cercas,
buganvílias desavisadas, quaresmeiras duras,
pensei que havia motivo para me preocupar
com a grama, que é uma planta capacho,
uma forma de a natureza subjugar-se
ou, tresloucada,
arregaçar os cabelos altos
na insanidade dos enterrados vivos
mostrar os cabelos dos mortos,
como um cemitério de cabeça.




( do livro A máquina das mãos, 2009)
 
imagem retirada da internet: magritte

terça-feira, 2 de junho de 2020

Luto, poema RCF





O carpir da chuva
ao velar o féretro do domingo.
O ponteiro do relógio,
que poderia ser minha bússola,
não fosse flecha também enclausurada.

Tentei o compasso da capoeira,
a cunha das artes marciais,
busquei em vão o quadrado
das caixas de murros.

Luto comigo
que é uma luta desigual.
Mas há em mim outra luta.
Meu fumo é o do luto,
por isso meus pulmões,
em vez de nicotina,
tragam asma,
que é um fole
que não infla,
só expele flauta,
dor e ar escuro.

Por outro lado, sou rijo
rijo como o colete das vértebras.
Mas, ao não me encontrar em nenhum canto
do triângulo das dúvidas, vivo de ponta-cabeça.





(do livro A máquina das mãos, Ed. 7Letras, Rio, 2009)


sábado, 29 de fevereiro de 2020

Vício de concreto, poema RCF


Resultado de imagem para stanislav plutenko




Uma cidade só deixa de ser hipótese
quando sua cartografia
estiver na retina de quem a habita.
Esta cidade cresceu em mim
como invasor que fez de baldio um terreno.
Um jogo de damas
que, em vez de comer pedras,
o tabuleiro se enche de peças.
Esta cidade – ou qualquer outra –
é uma pele de tambor que se estica.
Uma cidade, depois de crescer pras bordas,
é uma planta que para uma folha
nascer outra tem de apodrecer.
Por isso essas plantas do centro histórico
estão cheias de fungo.
Trago no bolso o eletrocardiograma
da cidade que é seu mapa.
Possuo mais cidades
que meus olhos podem reter.
Dentro de mim, as cidades
me habitam com sua voracidade
de ruas de pensamento pecaminoso,
de becos escuros do medo,
de viadutos suspensos
sem começo que o alimente
sem fim que o devore.
Uma cidade não se resume a um sonho
de cavernas unidas
sob o fogo do sol.
Nela, cada apartamento
tem seu rio particular
que existe nas torneiras
assim como o campo de concentração
que os bicos de gás
sugerem quando não alimentam
as esperanças de mesa.
A cidade é macerada
até seu suco gástrico
corroer as estruturas
e os nervos
– que também são estruturas –
dos homens.


(do livro A máquina das mãos, 2009)






sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Aluguel, poema RCF




Resultado de imagem para arte contemporânea jean-michel basquiat


O que em mim mora e que me deixa imóvel
é este poema que se inquilina
e, de favor, ameaça, mas não sai.
Não há bisturi ou nada que o alcance.
Embora possa soltar-se a qualquer momento
expelido humor que de nós se expulsa,
ainda me faz crer que por mim é criado
quando, poema invasivo, sou dele escravo.
Quer também a mente junto tomar,
já que o corpo me tem subjugado,
corpo metástase de seu mal-estar.
Pensa por mim o que nunca pensei.
Por fim é dos meus nervos locatário,
poema tumescente entre as minhas vértebras.
Verso espesso onde me alongo,
reverso escasso que só me dá cansaço.
Este poema transverso
incha e dói à mente sutil
sem mão que o toque
sem cirurgia que o ameace.
Assim ando torto e doente
de tal poema incandescente
que me habita quando não o expulso
que não tem teto
quando quero retê-lo
em cada verso, canto ou porão.





(do livro A máquina das mãos. Rio: 7Letras, 2009)


Basquiat, pintura

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Danação, poema RCF


Na sala de jantar da infância,
havia uma parede de tijolos de vidro.
Como – perguntava o menino –
se pode edificar sobre o que nos fere?
Depois, no útero da rede
tarde e túmulo
o caderno egípcio de caligrafia
sob o peito dormido
silêncio túrgido.

À noite, o castigo escuro do quarto
– a vida inteira pergunta qual o erro –
na bolsa de paredes infindas da memória
que não se enche nem esvazia
o pássaro do remorso que bica insistente.

Estou cansado de pisar na minha sombra.
Oh, tanto que pareço ser dela reflexo,
não ela de mim.

O que visto tem costura
de fio sem meada.
Planto um pé de imobilidade no jardim.
Amanhã colherei os frutos da solidão
que já estão mortos ao nascer.
Por isso preciso de jardineiro.
É difícil podar as plantas aquáticas,
pois essas só sobrevivem
na água amniótica da rotina.

(A máquina das mãos, 2009)

imagem retirada da internet: amarras

domingo, 16 de dezembro de 2018

Pardo, poema RCF




Essa gente parda, miúda,
mais parda ainda na alma,
mistura-se com o gasto
da cidade: paredes, fumaça,
fuligem, zinco, asfalto,
e a tristeza que também é parda.

Eu, que sou pardo,
também sou de escrita
apenas sugestão
como sonho ou fracasso
que são coisas
que poderiam ter sido.

A derrota sempre é parda
porque se pensa que passa
por ela impune: coisas pardas
permanecem mais
que emoções vermelhas.

Pardo é meu dia,
pardas são minhas dores alheias
já que, além das minhas,
sofro pela descrença parda
do homem pardo da esquina.

imagem retirada da internet: lucien freud

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Samuel Rawet, poema RCF




A angústia judia e imigrante de Rawet,
que vivia apenas em seu gueto de Sobradinho.
Rawet morreu lendo, em sua cadeira de balanço,
e lá ficou três putrefatos dias.
O gueto de Rawet era sua cadeira de balanço,
o menor gueto do mundo.



(do livro A máquina das mãos, 2009)

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Afogado, poema RCF



O mar, em sua ressaca,
vive em eterno vômito.
Cheio de algas e fantasia
devolve o que não lhe pertence.

E guarda em si o peixe
e o estômago embrulhado
e não devolve o navio naufragado
porque as embarcações
são árvores de ferro
que a tragédia plantou.
Em seus intestinos
de água em ebulição
só o náufrago ele rejeita
porque o náufrago
é uma outra caricatura mórbida
de um peixe
sem barbatana
de um peixe
sem guelra
o afogado é um corpo estranho
o afogado é, mesmo morto,
a presença da terra
na digestão salgada.

Tudo cabe no estômago
de água do oceano,
mas feroz e decidido
se recusa a digerir
o que é da terra
e não pertence ao desvario
piscoso das marés.

Assim também devolvo
o afogado que não pertence
à aquosa e uterina imaginação
de ânfora plena de liquens
e aflições de salitre
nada que não faça parte
do inconsciente marítimo
dos meus prazeres submersos.

 
 
(poema de A máquina das mãos, Rio de Janeiro: 7Letras, 2009)
 
 
imagem retirada da internet: trollada

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Açougue, poema RCF





Este açougue
onde estão pendurados
a carne dos meus pecados
os miúdos dos meus vícios
é um bricabraque de culpas.

Este açougue
nervos expostos
retorcidos músculos de remorso
massa tensa que inflama
os pesares e o peso da dúvida
que balança a balança
que me desequilibra.

Há tempo que não ligo
para a carne moída pelo tempo
e os ossos do ofício
que me fazem cão de pouca guarda,
exagero de ganchos,
puro exercício da vontade espúria,
cutelo do medo que me divide
afiado matadouro dos olhos alheios.

Aqui as juntas desmembradas do convívio
a sensação de que frito
na luz azul que mata insetos,
tudo poderia ser ligamento com o mundo
se a mente e a minha carne não fossem de segunda.



(do livro A máquina das mãos, Rio:7Letras, 2009)


imagem retirada da internet: yves lecoq

sábado, 15 de setembro de 2018

Imolação do poeta




A ferrugem se alimenta
daquilo que, findo,
também será o seu fim.

A vela é outra espécie
de combustão que se
consome enquanto vive.
Ou se consumindo
é que tem luz e vida.

O fogo se nutre
do que queima,
mas o fogo goza
com o fato de imolar-se
e, na imolação,
ter vida curta
embora brilhante.

O poeta também se alimenta
daquilo que o consome
e brilha por um instante
com o que se imola
e, se mais tarde não o reconhecem,
tudo será resto ferruginoso,
monte inútil de cinza,
pouco de cera sem pavio.



(do livro A máquina das mãos, 2009)

imagem retirada da internet: frida khalo

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Lições, poema RCF



Existir é a prova dos nove.
Um dia me cansarei de ser
a nota dissonante
e abandonarei a lição de casa,
a lição da rua, a lição da vida,
oh, Deus,
todas as lições que nunca aprendi.
Lição se aprende com o corpo.
O corpo tem sua matéria,
sua disciplina, seu passar de ano.
A natureza ensina com galhos,
cada folha que cai é um ponto.
Por toda parte há as esquinas das vírgulas.
Tenho medo do abc das torrentes,
da aritmética das montanhas,
da História das minhas dores.
Minha dor é um fruto
que, amadurecido, não cai
e vai apodrecendo o galho,
o caule e a raiz tormentosa.


(do livro A máquina das mãos, 2009)

imagem retirada da internet: almada negreiros