sexta-feira, 5 de abril de 2024

Fogo, poema

 


 


 

 

 

 

Queria antes a frieza

dos olhos de vidro

e a impureza das torrentes

que tudo iguala

na voragem das inquisições.

 

Há labaredas em mim

difíceis de apagar:

a combustão da verdade.

Um dia tudo será cinzas,

até mesmo o resto

que pretendi me sobreviver.

Meu fogo é fátuo

e já abuso

da queima das horas.

Viver é outra

forma de incêndio.

 

 

 

 

 

domingo, 31 de março de 2024

Gato, poema

 


 

 


 

 

 

O gato passeia em mim

suas garras de retorcido tédio.

Mia suas desavenças

com o corpo dúctil

das dificuldades da espécie.

Ora está no parapeito

da queda

– muitos de nós nos

acostumamos ao abismo –

ora se aquece

no labirinto do seu

casaco de pelos.

 

Com seus olhos de caçador,

se cobrem de escuridão

para se esgueirar

do sono, das sombras e do instante.

Quatro patas ejetam

a mola do corpo para fugir

do cão da morte

ou para se espantar

do susto da vida.

 

 

 

 

 

quarta-feira, 27 de março de 2024

As calçadas, poema

 


 


 

 

 

 

 

 

 

As calçadas do Leblon

se inclinam,

homens não podem

andar inclinados,

como se estivessem

com a vida inclinada.

Os homens inclinados

não têm prumo

e um homem sem prumo

é um barco ébrio à deriva.

Tenho a inclinação

para ver a vida de viés,

quando o mundo

é mais líquido.

 

Deve ser difícil

andar como Cristo

sobre as ondas

que são calçadas

que se movem,

Cristo devia ter

muito equilíbrio.

Um homem equilibrado

é tudo.

Meu desequilíbrio

é uma calçada

de pedras portuguesas

que me inclinam

na vida pedestre que levo.

 

Ao fim do percurso penso

que poderia ter

dois tamanhos para as pernas,

uma mais curta

para a beira dos edifícios

e outra mais longa

para perto do meio-fio.

Minha vida

é tão desequilibrada,

que também tenho

dois pensamentos:

um mais curto

para as coisas ordinárias

e outro mais longo

para o desequilíbrio do mundo.