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sábado, 18 de maio de 2019

Iracema, capítulo de Ideologia do personagem brasileiro


(trecho do livro A ideologia do personagem brasileiro, Ed. UnB, 2007, 1° capítulo)
(...) O roubo da sabedoria
Iracema conta a história da índia tabajara que se apaixona pelo português Martim. O lusitano é aliado dos pitiguaras, que lutam contra os franceses e seus aliados, os tupinambás e os já citados tabajaras. De qualquer forma, Iracema consegue que Martim seja apreciado pelo irmão, Caubi, e pelo pai, o pajé Araquém. Iracema foge com o português, abandonando sua tribo. Engravida. Martim, junto com o índio pitiguar Poti, luta e vence os inimigos. Iracema dá à luz um filho chamado Moacir, que simbolicamente seria o brasileiro, e que quer dizer em sua língua “filho do sofrimento”. Ao final, Iracema morre de tristeza e o pai branco leva o filho consigo. “O primeiro cearense, ainda no berço, emigrava da terra da pátria. Havia aí a predestinação de uma raça?”, pergunta, irônico, o narrador.

No contexto da história do livro, ressalte-se a filiação do personagem autóctone: é filha do sonho. Logo no início, quando Martim se torna hóspede do pai de Iracema, trava-se um diálogo curioso. Martim é cercado, na cabana de Araquém, por belas mulheres. Ele, contudo, faz questão da presença da amada. Iracema contesta que não “pode ser tua serva. É ela que guarda o segredo da jurema e o mistério do sonho. Sua mão fabrica para o Pajé a bebida de Tupã”. A jurema, segundo as anotações do próprio José de Alencar, “é fruto amargo que tem o efeito de haxixe, de produzir sonhos tão vivos e intensos que a pessoa sentia com delícias e como se fossem realidade as alucinações agradáveis da fantasia excitada pelo narcótico”. Iracema seria portadora da chave da imaginação. O Novo Mundo sempre foi identificado com o paraíso perdido, produzindo até mesmo no imaginário europeu a visão idílica do bom selvagem. Nesse país de sonho, fantasia, de extravagâncias imaginárias, de fabulosos mundos, a presença branca e européia de Martim representa a quebra da ingenuidade de um mundo perdido. Martim, ao fazer de Iracema sua prisioneira por meio do amor, impede que esta continue a preparar a beberagem que dá sonhos ao pajé. É como se Martim também usurpasse os poderes sobrenaturais do autóctone. Martim não apenas se miscigena gerando nova raça, ele rouba o fruto do sonho. Obviamente Alencar não faria essa leitura, nem era sua intenção macular o que para ele era fantasia perfeita, amigável, pacífica: a união das raças e a conquista do Novo Mundo. Em outra passagem, Irapuã, chefe dos guerreiros tabajaras, investe contra Martim, acusando-o de ofender Tupã, “roubando sua virgem, que guarda os sonhos da jurema”. Os sonhos da jurema eram uma dádiva. Sem ela, o pajé despenca de sua autoridade mística. Iracema traía não somente a tribo dos tabajaras, sua nacionalidade primeira, mas traía o imaginário de seu povo. Era algo muito mais sério e que o próprio Alencar não se dava conta, entretido que estava em traçar um retrato da formação do Brasil no minúsculo esmalte de sua lenda cearense.
Conta o fato de Iracema ser filha de Araquém, um pajé, e não de um cacique. Ela, portanto, é filha não de um chefe político – o cacique –, mas de chefe da sabedoria, do conhecimento, e detentor da autoridade que lhe dá o xamanismo: o místico. É um saber da tribo e, nesse sentido, um saber americano, nosso, brasileiro. O estrangeiro receia esse saber. Martim, escondido na caverna de Araquém, mantém diálogo com Iracema. Diz o branco, na parte XIII:

"– O chefe (Poti) não carece de ti: ele é filho das águas (diz Iracema); as águas o protegem. Mais tarde o estrangeiro escutará as falas do amigo.
– Iracema, é tempo que teu hóspede deixe a cabana do Pajé e os campos dos tabajaras. Ele não tem medo dos guerreiros de Irapuã, tem medo dos olhos das virgens de Tupã."

O estrangeiro não teme a filha de Araquém, mas o que se esconde atrás dos olhos – conhecimento, sapiência – da filha de Tupã – deus do sonho e do telúrico. É o medo do conhecimento da nova terra, do novo espaço visitado. Alencar não intuiu o conflito, o choque de visões, o contraste de perspectivas e a dualidade das Histórias. Aqui são duas Histórias que se encontram – e se fecundam apenas nos olhos românticos de Alencar. Mas se Alencar não intuiu o conflito, apressou-se em apresentar a solução distensa da miscigenação compactuada e não fruto da anulação do outro. A história de Iracema é a história do não, é a história da recusa, da perda de identidade e da conquista pela supremacia cultural. Por isso Martim teme mais o saber da filha de Tupã que o tacape do inimigo.

O mito torna-se realidade
A história da literatura já viu aparecer personagens que tomaram vida própria, como Dom Quixote, Dom Juan, Madame Bovary e outros. Foram a complexidade dos personagens e o simbólico que cada um carregava, como projeção social, que deram a essas figuras de papel densidade desconhecida em outras expressões artísticas. A ficção escrita tinha o poder de imprimir no público personagens que eram projeções do imaginário coletivo. É curioso como figuras do romance – narrativa complexa e culta – tinham atingido a esfera do comum social. As figuras de Dom Juan e de Dom Quixote fazem parte do aparato metafórico do povo, ainda que a grande maioria desconheça Cervantes e, mais ainda, Tirso de Molina, em cuja peça pela primeira vez apareceu, na Espanha do século XVII, o personagem sedutor e irresponsável . O caso de Iracema é diverso. Ainda que se possa argumentar que o personagem de José de Alencar logrou certo alcance, jamais se poderia comparar o alcance de personagens como os anteriormente citados com Iracema. Os personagens como Madame Bovary, Dom Quixote e Dom Juan não só se fixaram na mente dos leitores como se criaram certos adjetivos que foram incorporados à linguagem corrente culta como bovarismo, quixotesco e donjuanismo. O que não ocorre com Iracema, mesmo restrito ao território brasileiro. O processo de criação de Iracema, para José de Alencar, comparando-se ao dos mitos literários aqui citados, é justamente o contrário. Cervantes, Tirso de Molina e Flaubert produziram personagens com grande densidade que vinham de encontro a um vazio ou expectativa da psique coletiva. Eles foram apropriados pelo imaginário do leitor porque representavam comportamentos míticos e arquetípicos, grosso modo, a loucura, a vaidade e a traição. Todos os três são muito mais complexos. Em Dom Quixote estão presentes outros elementos: a luta entre Davi e Golias, o sonho exacerbado contra a realidade medíocre. Em Dom Juan, a vacuidade humana, o narcisismo, a utilização da mulher (ou do outro). Em Madame Bovary, o cotidiano sufocante, a ausência de perspectiva, o papel da mulher na sociedade burguesa, a necessidade do sonho. E muitos outros mais. Essa possibilidade enorme de simbologia também é propícia para que o mito literário se espalhe e se fixe na sociedade, já que acolhe e representa vários anseios ali sublimados. Com Iracema, há um processo inverso. Há um esvaziamento. O autor não parte da complexidade da personagem. Ele se apropria da forma vazia do mito e tenta preenchê-lo com sua história de amor. Dessa maneira, Iracema é um personagem que serve a uma idéia e não a várias idéias que surgem baseadas na referencialidade excessiva e múltipla do personagem. O personagem recebe uma exterioridade e não projeta uma interioridade.

O projeto ideológico (...) continua...
(fim do trecho selecionado)

pgs 22 e 23 de A ideologia do personagem brasileiro

imagens retiradas da internet

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Tens apenas meia hora para inventar o furor, poema RCF





tens apenas meia hora para inventar o furor

teu jardim é pródigo de ventos
                                     sustos uterinos
enveredas pelo abismo
                                     das desculpas úmidas

tu te recolhes à rotunda do medo
                                 atrás de cada porta se revela
gestos incompletos
na esperança do aperto
de mão que nunca virá
                              porque nunca foi tentado

enfurnada na cafua
                            onde tremes
e receias a mudez
nuvens e desastres de colete amarelo
                            te mostram
que o silêncio está em ti
e não pode ser fracionado
                           ou diminuído
como o coração
que não se amputa

parca e inexata
                         avanças pela manhã líquida
as manhãs são sempre femininas
                         os cachorros
vadeiam o mal estar do mundo

cresce a dívida
que não contraíste
                        com o agiota
que nem ao menos conheces

buscas então
                      o esconderijo
mais aviltante
para apaziguar
o desejo dos torpes
e afundar
no madrigal do fim
                               
                                                                

(Andarilho, 2000)




imagem retirada da internet: solitaryangel

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Cemitério, poema RCF



o cemitério
de um homem
não é composto
                    apenas de mortos
                    mas almas verticais
                    que se enterram
                                 na carnificina dos minutos

a memória pesa
– isqueiro de prata no bolso
cada chama
                     não responde
embora queime
                     mais que a lucidez

são almas móbiles
                     de Calder
que se agitam
no espaço
entre ausência
e eternidade

visto-me
– meu terno é violento – ,
não ouso pedir
                       a demissão
                       da telegrafia
                       das lembranças



8.9.98

(do livro Andarilho, 2000)


imagem retirada da internet: andarilho

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Os canhões do silêncio, José Chagas





Resultado de imagem para Robert Frank







Aqui eu sou um pastor de luas
acompanho o crescer e o minguar de todas
sei as que a noite escolhe
para o seu alimento de poesia
e as que fornecem o mais puro leite de sonho

O que bebo de lua todas as vezes
dá para minha embriaguez mensal

Aqui o silêncio é história visível
porque o luar se faz memória branca
sobre o quanto de vida cabemos nós
em meses

                As luas contam meus dias
                medem meu tempo
                marcam todas as fases
                de minha solidão

O silêncio é maior quando elas o banham
e ele parece entrar limpo pelos olhos
como uma verdade posta no ar
para explicar a noite

               As luas são muitas porque
               nenhuma lua é a mesma lua
               quando volta a sua face
               para as coisas do mundo









(trecho interrompido do longo poema - todo um livro - com uma só temática em que o pano de fundo é a cidade de São Luís. José Chagas é um dos grandes poetas brasileiros e seu livro Os Canhões do Silêncio, uma obra-prima da literatura brasileira.)

domingo, 29 de julho de 2018

O AMANUENSE BELMIRO, CYRO DOS ANJOS







            Em 2017, o livro mais importante de Cyro dos Anjos e um dos livros fundamentais da literatura brasileira comemorou oitenta anos. A primeira edição é de 1937. Com O amanuense Belmiro, Cyro dos Anjos ingressa na galeria dos grandes escritores brasileiros. Este é um livro sobre um melancólico funcionário público que resolve escrever não sabe bem se suas memórias ou um diário ou um romance. Pouca coisa acontece no cotidiano rotineiro do funcionário público que registra suas emoções, mais que as ações, de seu mundo muito restrito.
            O amanuense Belmiro pertence ao grupo de romances intimistas e enquadra-se no grupo de romance que, por gosto do paradoxo, chamo de “regionalismo urbano”. A razão de chamar “regionalismo urbano” é devido ao fato de a década de 1930 ser chamada a da Geração de 30 do romance brasileiro, dominada pelo regionalismo rural, social, engajado, tendo como pano de fundo a seca e o sertão nordestinos. Os autores como o mineiro Cyro dos Anjos com seu O amanuense Belmiro, o gaúcho Dyonélio Machado com seu Os ratos e o carioca Marques Rebelo com seu Marafa, mostram as especificidades de suas cidades e o traçado urbanístico e humano da urbe que escolheram para cenário dos seus romances.
            A vida lenta, monótona e melancólica desse amanuense não contém grandes aventuras exteriores. Mas, para compensar, seu universo interior é tão rico que o livro se torna uma das grandes expressões da intimidade e da maneira de ver o mundo. Existe uma melancolia divertida que dá um toque requintado à frase, elimina o tom dramático e trágico, e o volteio que imprime à sentença torna-a não somente original, mas também de um cunho inusitado. A grande aventura do amanuense é interior – que será realmente o grande périplo do homem contemporâneo.
            Cyro tem a influência de dois grandes escritores. De Machado de Assis herdou o gosto pelos capítulos espirituosos e curtos. De Proust, memorialista e solipsista, retira o mesmo tratamento de lembrar de forma lírica e nostálgica a infância perdida (Cyro chega a ponto de em vários momentos parar a narrativa para compará-la e afastá-la do romance prousteano com suas cidades de Combray e  Balbec, além de suas jeunes filles en fleur).

Cyro dos Anjos
            Funcionário público assíduo e solteirão, fantasiando sobre duas mulheres (Carmélia e Camila), Belmiro culpa sua função por esta propensão à reflexão. “Não sei até onde irá esta fantasia de amanuense ocioso. No fundo, a culpa é da Seção de Fomento, que não fomenta coisa alguma, senão o meu lirismo. Bem agem aqueles que acorrentam os homens e lhes dão um duro trabalho. Deixem-no folgado, e teremos o anarquista, o poeta, o céptico e outros seres que perturbam a vida do rebanho”. Ora, é claro que a ociosidade não é culpada por tantas criatividades literárias ou espíritos especulativos. Belmiro já trazia a veia lírica. E, como um Quixote moderno, não tendo La Mancha para percorrer e enfrentar tantos desafios para salvar sua Dulcinéia, a luta de Belmiro é contra a realidade mesquinha que o envolve e sua veia delicada de observador dolorido de um mundo onde não encontra lugar para estabelecer-se.
            Contudo, Belmiro é sociável, ainda que não tenha namorada. Mantém um círculo muito singular de amigos. Redelvim, que é um revolucionário marxista e se esconde da polícia política; Silviano, filósofo nietzscheano (como Quincas Borba com seu Humanitas, Silviano tem suas teorias sobre o ascetismo e a renúncia à banalidade da vida carnal); Prudêncio, com sua mania de falar inglês e Glicério, esnobe e rico. E a amiga Jandira que congrega o grupo por certo tempo.
            Cyro dos Anjos alimenta a mesma ironia machadiana. E desenvolve também a auto-ironia, embora não com a corrosão da ironia do bruxo do Cosme Velho. Belmiro é um narrador melancólico brando, lírico, ingênuo e, em determinados momentos, sua visão disfórica contém até mesmo certa alegria. O importante na narrativa – e neste ponto a ironia é peça importante – é a capacidade de observação do narrador. O que dá o tom de originalidade é a maneira como o narrador observa fatos ordinários.
            Cyro dos Anjos viveu a vida inteira como servidor público. Formado em Direito, trabalhou como chefe-de-gabinete para o secretário de Finanças e, mais tarde, para o governador de Minas Gerais. Dirigiu a Imprensa Oficial e, transferindo-se para o Rio de Janeiro, ocupou cargos na administração pública do governo Dutra. Trabalhou com Juscelino Kubitschek como conselheiro do Tribunal de Contas. Manteve também uma paralela atividade como professor universitário, em Minas e em Brasília. Cyro pertence à geração de Pedro Nava, Carlos Drummond de Andrade, Abgar Renault, Milton Campos e muitos outros mineiros literatos e políticos.
            Sua ligação com Drummond é mais que de amizade: em O amanuense Belmiro, o narrador cita trechos do poema do autor de A rosa do povo: “Mundo mundo vasto mundo / se eu me chamasse Raimundo / seria uma rima, não seria uma solução”. Ora, é uma citação no calor da hora modernista. Cyro dos Anjos deste modo constrói seu romance dentro da ótica da nova estética que se impunha: a da Semana da Arte Moderna de 22. Só que Cyro não tem o arrojo formal e cubista de um Oswald de Andrade, com seu Memórias de João Miramar, ou o despojamento cínico e carnavalesco de Macunaíma. Isso em nada invalida sua prosa. Embora elegante, de um português exemplar, O amanuense Belmiro é um romance avançado para a época.
            A solidão amorosa e patética de Belmiro, contudo, não será a solidão urbana dos grandes centros, da massificação e do anonimato das megalópoles. Belmiro vive numa Belo Horizonte ainda provinciana. Sua solidão é traço de personalidade e é ela que permite que seja um observador privilegiado, distante das paixões políticas ou da agitação mundana. A única cena que o atordoa e o pode tirar de sua servidão ao vício da melancolia é a do carnaval em que ele é envolvido num torvelinho de gente e pensamentos. Belíssima cena que, colocada logo de início, poderá levar ao leitor a idéia de um romance mais abrangente e cheio de peripécias. É apenas um hiato, perverso e alucinante hiato, que o retira momentaneamente da realidade mesquinha.
            Esta obra-prima da literatura brasileira contém dois elementos primordiais em toda narrativa: o mundo de dentro e o mundo exterior. Como seus companheiros de escritura, e também mineiros, Lúcio Cardoso e Cornélio Pena, dois atormentados, que escrevem romances dolorosamente intimistas, Cyro dos Anjos, aproxima-se deles ao introjetar o mundo exterior e, internalizado o de fora, transformar as ações em pensamentos. Afasta-se deles pela leveza e auto-ironia e constrói uma narrativa em que as peripécias são pretextos a longas reflexões sobre a natureza humana.
            Fruto de seu tempo, o narrador apresenta no livro alguns pensamentos e até mesmo comentários filosóficos. Mas as “filosofias” contidas no livro como o marxismo de Redelvim ou o idealismo transcendental de Silviano mostram apenas as exacerbações e inquietações político-filosóficas da época, caracterizando mais o personagem de que dando amparo a uma discussão metafísica a que o livro não se propõe. Mostra que o amanuense, celibatário morando com duas tias, embora recolhido, está atento às idéias que pululam em sua volta.
            O amanuense Belmiro não foi o único livro que Cyro dos Anjos publicou. De sua bibliografia constam Abdias (1945), Montanha (1956), A menina do sobrado (1979) e Poemas coronários (1964). Mas nada se compara a O amanuense Belmiro, sua obra maior. Com ela, ingressou definitivamente na história da literatura brasileira. Em 1976, retorna ao Rio de Janeiro e, como professor titular extraordinário, dará na Universidade Federal do Rio de Janeiro o curso “Oficina literária”.
            Há de se distinguir nos processos de construção da narrativa várias expressões da subjetividade como o fluxo de consciência (stream of counsciouness), o monólogo interior, a prosa personalística mas que engloba uma visão geral (o “eu coletivo”, como chamou Silviano Santiago, de Sérgio, personagem-narrador do romance O Ateneu) e, entre outras, a dicção analítica de O amanuense Belmiro, que sobre cada ação tira uma digressão original. Esse personagem misantropo, tímido, recatado e solitário não é um ser que vá contra a sociedade nem dela se isola. Tem família e amigos, mas seu “eu” é tão singular que não consegue ultrapassar a barreira imaginária criada em torno de si.
            A burocracia já deu grandes romances na história da literatura nacional (entre eles, O triste fim de Policarpo Quaresma ou Memórias do escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto) e internacional (entre outros, O processo, de Kafka, ou até mesmo, de maneira simbólica, O deserto dos tártaros, de Dino Buzatti, que se passa num quartel onde nada acontece). A burocracia em si, embora não seja o tema desses romances, é o caldo de cultura em que se fomentam não apenas o ócio, mas a grande crise do homem em relação ao trabalho, ao Estado, aos governos e a inutilidade dos gestos humanos que se perdem na repetição esterilizante.
            O ponto de vista de Belmiro não é de desistência da vida, nem mesmo poderia considerar uma acomodação. Belmiro é mais sutil e incisivo: a vida é uma agitação sem sentido (parodiando a frase shakespereana: “a vida é uma história contada por um clown significando nada”). Culto, não consegue participar ativamente dela. Logo, a feroz atividade humana e suas inter-relações, seus intercâmbios sociais e suas trocas simbólicas, só aumentam seu abismo entre sua existência e os outros. Muito se deve, não há dúvida, ao caráter de observador da vida do próprio autor, mas também há de se pensar no momento histórico pelo qual o país passava: ditadura Vargas, tentativas de golpe, uma perspectiva de opressão e desânimo. Não se procure também nem Pascal nem Schopenhauer na obra de Cyro dos Anjos como foram buscados os mesmo filósofos para encontrar a “filosofia” de Machado de Assis. Os romances não são tratados de filosofia, nem seus autores filósofos. O que existe em Belmiro, mesmo citando filósofos, é uma desencantada constatação da solidão humana. De um círculo mínimo e do qual não se pode escapar e que ele, Belmiro, precocemente, percebeu antes daqueles que chegaram à velhice.
            Restam ainda algumas considerações sobre a forma de diário que o autor escolheu para apresentar seu livro. O diário são fatias de vida e, propositalmente, fadadas a um não leitor, ou seja, a um monólogo. É um diálogo entre o ator e o pensador. O ator das ações de um dia e aquele que registra e faz reflexões sobre o ocorrido. O diário é a maneira de recortar a realidade e oferecê-la como fragmento. Além disso, se ele restringe ao propor falar sobre datas, ele se abre à confissão. Dessa forma, o diário é redutor e ao mesmo tempo universal.
            Mário de Andrade condenava a literatura brasileira de sua época que era feita, segundo ele, de personagens perdedores. Mário não procurou entender a razão desta derrota, apenas constatou o modo introspectivo e a desistência da vida. Já apontei em livro (A ideologia do personagem brasileiro) esta derrota – Mário não percebeu que até mesmo o seu anárquico Macunaíma era um personagem derrotado – que advinha de uma derrota externa: a falta de perspectiva de uma nação. Não percebia também que era uma tendência mundial a usufruir a grande descoberta da virada do século XIX para o XX: a descoberta por Freud do inconsciente e os mecanismos de funcionamento da censura na consciência introspectiva.

(do livro A cidade na literatura e outros ensaios. São Luís: Academia Maranhense de Letras, 2016)


quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Entrevista TV SENADO

Um tempo sombrio: a entrevista do programa Leituras, da TV Senado, é com o escritor Ronaldo Costa Fernandes, que acaba de publicar o romance Um homem é muito pouco, narrado com quatro vozes paralelas que se irmanam na mesma dor.


Clique no site abaixo:
http://www.senado.gov.br/noticias/tv/programaListaPadrao.asp?COD_VIDEO=71084

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A última entrevista de Graciliano Ramos



Numa manhã de dezembro de 1948, dez anos após a publicação de “Vidas Secas”, Graciliano Ramos se confessa ao jornalista e escritor Homero Senna, em sua última longa entrevista


       Principio por pedir a Graciliano Ramos que me diga alguma coisa sobre os começos de sua vida, no interior de Alagoas, na cidade de Quebrangulo (não Quebrângulo, como geralmente se diz), onde nasceu. “Mas isso tudo está contado em ‘Infância’. Valeria a pena repetir?” E como eu dissesse que sim, resumiu: “De minha cidade natal não guardo a menor lembrança, pois saí de lá com um ano. Criei-me em Buíque, zona de indústria pastoril, no interior de Pernambuco, para onde, a conselho de minha avó, meu pai se transferiu com a família. Em Buíque morei alguns anos e muitos fatos desse tempo estão contados no meu livro de memórias”.
        Abro o volume, para conferir, e, entre outras coisas, lá encontro este perfil psicológico do velho Ramos, traçado pelo filho: “Tinha imaginação fraca e era bastante incrédulo. Aborrecia os ateus, mas só acreditava nas contas correntes e nas faturas. Desconfiava dos livros, que papel aguenta muita lorota, e negou obstinadamente os aeroplanos. Em 1934 considerava-os duvidosos”.
        De quem o romancista teria herdado, então, o gosto pela literatura? Talvez do avô paterno, cujo retrato desbotado costumava admirar no álbum que se guardava no baú, e de quem admite que tenha recebido em legado “a vocação absurda para as coisas inúteis”. De sua mãe, o espírito infantil recolheu esta impressão: “Uma senhora enfezada, agressiva, ranzinza, sempre a mexer-se, várias bossas na cabeça mal protegida por um cabelinho ralo, boca má, olhos maus que em momentos de cólera se inflamavam com um brilho de loucura”, ente difícil que na harmonia conjugal “se amaciava, arredondava as arestas, afrouxava os dedos que batiam no cocuruto, dobrados, e tinham a dureza de martelos”.
        De Buíque, onde o romancista frequentou a primeira escola, experimentou os primeiros desânimos diante dos livros didáticos do Barão de Macaúbas e viveu algumas das inesquecíveis aventuras de sua meninice, a família mudou-se para Viçosa, não a de Minas, terra do presidente Bernardes, mas a açucareira do interior de Alagoas. O que foi a extensa caminhada, de dezenas de léguas, desde os campos ralos, povoados de xiquexiques e mandacarus, até uma nova paisagem, de vegetação densa e muito verde, longa viagem feita em lombo de animal, está contada numa das melhores páginas de “Infância”.
         De Viçosa, Graciliano passou a Maceió, onde frequentou um colégio mau; voltou e, aos 18 anos, foi morar em Palmeira dos Índios, no interior do Estado. Em Palmeira dos Índios chegaria a prefeito, e foi graças a dois relatórios que escreveu que se tornou conhecido. Mas não precipitemos os acontecimentos.
          Estamos ainda em 1914. Nesse ano realiza Graciliano sua primeira viagem ao Rio, tendo trabalhado como foca de revisão. No “Correio da Ma­nhã” e no “O Século”, de Brí­cio Filho, não passou de suplente de revisor, trabalhando apenas quando o revisor efetivo faltava. Em “A Tarde”, porém, um jornal surgido naquela época para defender Pinheiro Ma­chado, chegou a revisor efetivo. Morou em várias pensões, naquele Rio dos princípios do século, que tantos cronistas já têm descrito. Os antigos endereços ficaram-lhe na memória, e sem qualquer esforço o romancista os vai citando: Largo da Lapa 110; Maranguape 11, Riachuelo 19. Todos numa zona então muito pouco recomendável, porque bairros de meretrício, de desordeiros e boêmios.
         Nessa sua primeira viagem à Corte procurou aproximar-se de algum escritor, fez camaradagem literária?
Nenhuma. Os escritores daquele tempo eram cidadãos que, nas livrarias e nos cafés, discutiam colocação de pronomes e discorriam sobre Taine. Machado e Euclides já haviam morrido, e os anos de 1914 e 1915, em que estive no Rio, assinalam, na literatura brasileira, uma época cinzenta e anódina, de que é bem representativo um tipo como Osório Duque Estrada, que então pontificava.
Ficou aqui até quando?
Até 1915. Depois de curta e nada sedutora permanência na capital, achei melhor voltar para Palmeira dos Índios, onde já havia deixado um caso sentimental e onde minha família estava toda sendo dizimada pela peste bubônica. Num só dia perdi dois irmãos. Alarmado, e também desgostoso com a vida que levava, tratei de voltar para Alagoas. Em outubro de 1915 casei-me e estabeleci-me com loja de fazendas em Palmeira dos Índios. A mesma loja que fora de meu pai.
Nessa ocasião já tinha preocupações literárias?
Lia muito e escrevia coisas que inutilizava ou publicava com pseudônimos.
Quer revelar alguns desses pseudônimos?
Você é besta.
Fazia versos?
Aprendi isso, para chegar à prosa, que sempre achei muito difícil. Tendo vivido quinze anos completamente isolado sem visitar ninguém, pois nem as visitas recebidas por ocasião da morte de minha mulher eu paguei, tive tempo bastante para leituras. Depois da Re­volução Russa, passei a assinar vários jornais do Rio. Desse modo me mantinha mais ou menos informado, e os livros, pedidos pelos catálogos, iam-me do Alves e do Garnier, e principalmente de Paris, por intermédio do Mercure de France.
Então, se procurava manter-se tão bem informado a respeito do que se passava no Rio e no resto do mundo, deve ter acompanhado, lá de Palmeira dos Índios, o movimento modernista?
Claro que acompanhei. Já não lhe disse que assinava jornais?
E que impressão lhe ficou do modernismo?
Muito ruim. Sempre achei aquilo uma tapeação desonesta. Salvo raríssimas exceções, os modernistas brasileiros eram uns cabotinos. Enquanto outros procuravam estudar alguma coisa, ver, sentir, eles importavam Marinetti.
Não exclui ninguém dessa condenação?
Já disse: salvo raríssimas exceções. Está visto que excluo Ban­deira, por exemplo, que aliás não é propriamente modernista. Fez sonetos, foi parnasiano. E o “Solau do Desamado” é como as “Sex­tilhas de Frei Antão”. Por dever de ofício, pois estou organizando uma antologia de contos brasileiros, antologia que rola há mais de três anos, tive de reler toda a obra de um dos próceres do modernismo. Achei dois contos de cinco ou seis páginas cada um. E pergunto: isso justifica uma glória literária?
(Franze a testa, detém-se um instante, mas logo prossegue.)
Os modernistas brasileiros, confundindo o ambiente literário do país com a Academia, traçaram linhas divisórias rígidas (mas arbitrárias) entre o bom e o mau. E querendo destruir tudo que ficara para trás, condenaram, por ignorância ou safadeza, muita coisa que merecia ser salva. Vendo em Coelho Neto a encarnação da literatura brasileira — o que era um erro — fingiram esquecer tudo quanto havia antes, e nessa condenação maciça cometeram injustiças tremendas. Nas leituras que tenho feito, para a organização da antologia a que me referi, encontrei vários contos, de autores propositadamente esquecidos pelos modernistas e que seriam grandes em qualquer literatura. Lembro-me de alguns: “O Ratinho Tique-Taque”, de Medeiros e Albu­quer­que; “Tílburi de Praça”, de Raul Pompéia; “Só”, de Domício da Gama; “Coração de Velho”, de Mário de Alencar; “Os Brincos de Sara”, de Alberto de Oliveira. Nas antologias que andam por aí essas produções geralmente não aparecem, e de alguns dos autores citados são transcritos contos que não dão a ideia exata do seu talento e do domínio que tinham do gênero. Só posso atribuir isso, como já disse, à desonestidade. Porque se os compararmos aos produtos dos líderes modernistas, estes se achatam completamente.
Quer dizer que não se considera modernista?
Que ideia! Enquanto os rapazes de 22 promoviam seu movimentozinho, achava-me em Palmeira dos Índios, em pleno sertão alagoano, vendendo chita no balcão.
E como foi que chegou a prefeito da cidade?
Assassinaram o meu antecessor. Escolheram-me por acaso. Fui eleito, naquele velho sistema das atas falsas, os defuntos votando (o sistema no Brasil anterior a 1930), e fiquei vinte e sete meses na prefeitura.
Consta que, como prefeito, soltava os presos para que fossem abrir estradas…
Não era bem isso. Prendia os vagabundos, obrigava-os a trabalhar. E consegui fazer, no município de Palmeira dos Índios, um pedaço de estrada e uma terraplenagem difícil.
Em que ano foi isso?
Em 1930.
O ano do relatório…
Os relatórios são dois: há o de 1929 e o de 30.
Relatórios do prefeito ao governador do Estado, dando contas de sua administração, não é?
Justo. Apenas, como a linguagem não era a habitualmente usada em trabalhos dessa natureza, e porque neles eu dava às coisas seus verdadeiros nomes, causaram um escarcéu medonho. O primeiro teve repercussão que me surpreendeu. Foi comentado no Brasil inteiro. Houve jornais que o transcreveram integralmente.
E assim nasceu o escritor…
Não. Nasceu antes. Mas tinha o bom senso de queimar os romances que escrevia. Queimaram-se diversos. “Caetés”, infelizmente, escapou e veio à publicidade.
Numa edição Schmidt…
Exato. Por intermédio de Rômulo de Castro, Schmidt, que aqui no Rio lera os meus relatórios, pediu-me que lhe enviasse artigos para a imprensa. Como não me interessasse fazer carreira no jornalismo, nem construir nome literário, recusei-me. Aliás, nessa ocasião já estava de mudança para Maceió, pois fora nomeado diretor da Imprensa Oficial. Com a revolução, quis demitir-me, mas não pude. E lá fiquei até dezembro de 1931. Não suportando os interventores militares que por lá andaram, larguei o cargo e voltei para Palmeira dos Índios, onde, numa sacristia, fiz “São Ber­nardo”. Estava no capítulo 19, capítulo que escrevi já com febre, quando adoeci gravemente com uma psoíte e tive de ir para o hospital. Do hospital ficaram-me impressões que tentei fixar em dois contos: “Paulo” e “O Relógio do Hospital” — e no último capítulo de “An­gús­tia”. No delírio, julgava-me dois, ou um corpo com duas partes: uma boa, outra ruim. E queria que salvassem a primeira e mandassem a segunda para o necrotério. Estava convalescendo, em janeiro de 1933, quando tive notícia da minha nomeação para diretor da Instrução Pú­blica. Não acreditei.
Qual o interventor que o nomeou?
O capitão Afonso de Car­valho, hoje coronel. Foi disparate. Permaneci no cargo até 3 de março de 1936. Em 1933 Sch­midt lançara “Caetés”, que eu trazia na gaveta desde muito tempo. Naquele dia do mês de março de 1936, porém, sem qualquer explicação, fui preso e remetido para o Recife. onde passei dez dias incomunicável. Depois fui metido no porão do “Manaus” e vim para cá. Tive dez ou doze transferências de cadeia.
Qual o motivo da prisão?
Sei lá! Talvez ligações com a Aliança Nacional Libertadora, ligações que, no entanto, não existiam. De qualquer maneira, acho desnecessário rememorar estas coisas, porque tudo aparecerá nas “Memórias da Prisão”, que estou compondo.
Foi assim, então, que veio para o Rio?
Foi. Arrastado, preso.
Mas valeu a pena, não?
Sinceramente, não sei. Nun­ca tive planos na vida, muito menos planos de sucesso. De­pois daquela experiência da mocidade, o Rio não me atraía. No entanto vim, no porão do Manaus, e aqui vivo.
(Estávamos, portanto, diante de um antipará. Os “parás”, na saborosa classificação de Jaime Ovale, são “esses homenzinhos terríveis que vêm do Norte para vencer na capital da República; são habilíssimos, audaciosos, dinâmicos e visam primeiro que tudo o sucesso material, ou a glória literária, ou o domínio político”. Que pensaria Graciliano dessa fauna? Lanço a pergunta e a resposta não tarda.)
Está claro que existe um “exército do Pará”. Na maioria dos casos, porém, os seus milicianos já chegam feitos do Norte. Aqui vêm apenas colher os louros, ou, mais positivamente, as vantagens. E no Rio em geral definham, tornam-se mofinos. Ignoro se também sou “Pará”. Nunca fiz coisa que prestasse, mas ainda assim o pouco que fiz foi lá e não aqui, onde a vida não nos deixa tempo para nada. Hoje leio apenas jornais, um ou outro ro­mance. De manhã escrevo; à tarde saio para as minhas ocupações (inclusive para o “papo” na livraria); à noite trabalho. Onde iria achar tempo para leituras? E se não tivesse lido um pouco no interior, onde os dias são intermináveis, seria inteiramente analfabeto.
Quer dizer que acha preferível, para o escritor, a vida na província?
No Nordeste não podemos falar em “provincianismo”, luxo dos Estados grandes: São Paulo, Minas, Rio Grande do Sul. Nós, do Nordeste, temos de ser “municipais” ou “nacionais”. E, a ter de morar em qualquer dos Estados daquela região, acho preferível o interior às capitais, porque estas, seus mexericos, seus grupinhos literários, suas academiazinhas, seus institutos históricos, são sempre muito ruins. Já no interior poderá um homem entrar em contato íntimo com a terra e o povo. É, por exemplo, de onde vem a força de um José Lins do Rego, de uma Raquel de Queirós, de um Jorge Amado.
Sabe que é apontado como um dos nossos escritores modernos que melhor manejam o idioma?
Conversa. Talvez, se houvesse alguma verdade nisso, eu devesse muito aos caboclos do Nordeste, que falam bem. É lá que a língua se conserva mais pura. Num caso de sintaxe de regência, por exemplo, entre a linguagem de um doutor e a do caboclo — não tenha dúvida, vá pelo caboclo, e não erra. Note que me refiro ao caboclo do sertão. O do litoral vai-se estrangeirando.
Mas não me venha dizer que seu aprendizado da língua se fez apenas com os caboclos de Buíque e Palmeira dos Índios.
Claro que não. Muitas coisas não poderiam eles ensinar-me. Está visto que tive de chatear-me lendo gramáticas. E arrepiei-me com a leitura dos frades.
Consta que você, como Euclides da Cunha e Monteiro Lobato, é grande leitor de dicionários.
Consta e é verdade. Dicio­nário, para mim, nunca foi apenas obra de consulta. Costumo ler e estudar dicionários. Como escritor, sou obrigado a jogar com palavras. Logo, preciso conhecer o seu valor exato.
Acha isso uma qualidade?
Não sei. O que sei é que não há talento que resista à ignorância da língua.
Poderia, hoje, deixar de escrever?
Quem me dera poder deixar.
Sua obra de ficção é autobiográfica?
Não se lembra do que lhe disse a respeito do delírio no hospital? Nunca pude sair de mim mesmo. Só posso escrever o que sou. E se os personagens se comportarem de modos diferente, é porque não sou um só. Em determinadas condições, procederia como esta ou aquela das mi­nhas personagens.
Já se pode viver, no Brasil, da profissão de escritor?
Não creio. A última edição de minhas obras rendeu-me 50 contos. Da edição americana de “Angústia”, recebi 10 contos apenas. Tenho também três livros traduzidos para o espanhol. Mas os negócios na Argentina e no Uruguai andaram mal. Como não tenho o hábito de frequentar os suplementos e as revistas ilustradas, a literatura me rende pouco.
Que outras atividades exerce?
Trabalho no “Correio da Manhã” e sou inspetor de ensino secundário no ginásio São Bento.
Gosta do emprego que tem?
É-me indiferente. Trata-se de uma sinecura como outra qualquer. Em todo caso, nunca tive uma falta nem tirei licença.
E no “Correio da Manhã”, qual o seu serviço?
Corrijo a gramática dos repórteres e noticiaristas.
Gosta de jornalismo?
Não. Nem me considero jornalista.
Com essa vida de jornal, naturalmente dorme tarde.
À uma hora. E me levanto às sete.
Nos seus livros trabalha, portanto, apenas de manhã.
Exato. Até às onze, mais ou menos.
E para trabalhar, exige um bom ambiente ou não liga a isso?
Trabalho em qualquer parte. “Angústia” foi escrito em palácio, quando eu era diretor da Instrução Pública de Alagoas. “São Ber­nardo”, em péssimas condições, numa igreja. Qualquer canto me serve. Mas disponho, hoje, em casa, de uma confortável sala de trabalho: isso que os burgueses costumam chamar “escritório”.
Gosta da casa onde mora?
Em qualquer lugar estou bem. Dei-me bem na cadeia. Tenho até saudades da Colônia Correcional. Deixei lá bons amigos.
(Casado duas vezes, Graciliano tem seis filhos e duas netas. Pergunto-lhe se costuma ajudar a mulher em casa, e ele se espanta.)
Já faço muito em pagar as despesas. Aliás, tenho horror a compras. E quando ouço o telefone, tranco-me.
Aos domingos, o que costuma fazer?
Em geral escrevo pela manhã e à tarde durmo.
(O autor de “Vidas Secas” não faz visitas, não vai a concertos nem a conferências e não gosta de música. Tem, entretanto, um velho hábito: vai diariamente à Livraria José Olympio, na Rua do Ouvidor, e fica lá várias horas, num banco que já é quase propriedade sua, localizado no fundo da loja.)
Muitas vezes vou lá dormir. Mas aparecem amigos, conhecidos, e toca-se a conversar.
(Em virtude desse hábito, muita gente pensa que Graciliano dá a vida por um “papo”. Ele, porém, desfaz-me essa impressão.)
Quase sempre converso forçado, porque chegam pessoas. Mas na verdade muitos dias preferiria ficar quieto, sem trocar palavra. Também é fato que lá aparecem bons amigos, desses que a gente revê com prazer.
(Como Manuel Bandeira, Graciliano recebe inúmeros originais, para ler e dar opinião. A Bandeira dirigem-se sobretudo os jovens poetas ainda incertos quanto à própria vocação. E os que se iniciam na prosa, geralmente procuram mestre Graciliano. Este, assim, tem sempre uma quantidade enorme de originais para ler.)
É maçada. Recebo dezenas de originais. São principiantes, geralmente dos Estados, que desejam, é claro, alguns elogios. Já me aconteceu receber, na mesma semana, originais do Piauí e de Goiás. Eu devia fazer como José Lins: afirmar, sem leitura, que tudo é magnífico.
(Os escritores jovens do Brasil, que dos mais distantes Estados remetem originais para Graciliano Ramos, em busca de uma opinião, e nem sempre recebem resposta, ou a resposta que esperavam, podem, entretanto, considerar-se vingados: na própria casa do romancista surgem originais, e originais que ele tem, forçosamente, de ler, e talvez percorra com olhos mais benignos: os contos de seu filho Ricardo, de 19 anos, e de sua filha Clara, quatro anos mais moça que o irmão. Ambos têm vocação para as letras. Ricardo, jornalista, já tem publicado alguma coisa, naturalmente com a chancela paterna. E, ainda que Graciliano nos afirme o contrário, nos diga que nenhum deles lhe pede opinião, é divertido imaginar o romancista, cansado de emendar o português dos noticiaristas do “Correio da Manhã”, e de ler originais que lhe chegam, às dezenas, de todo o país, ter, em casa, de dar opinião sobre os trabalhos dos filhos.)
(Pergunto qual a sua impressão dos contos de Ricardo Ramos, e ele não se nega a opinar.)
Regulares. Tem jeito e poderá fazer coisa que preste.
E Clara?
É ainda criança. Tem 15 anos apenas e está concluindo o curso secundário.
(Despedindo-me de Graciliano, depois da longa conversa que aqui tentei reproduzir, faço-lhe uma última pergunta: Acredita na permanência de sua obra? E sem qualquer pose, sem nada que deixasse transparecer falsa modéstia, antes dando a impressão de que falava com absoluta sinceridade, esse pessimista seco e amargo respondeu-me.)
Não vale nada; a rigor, até, já desapareceu.

Nota: Entrevista publicada na “Revista do Globo”, edição nº 473, em 18 de dezembro de 1996. E posteriormente no livro “República das Letras”, de Homero Senna, editora Civilização Brasileira.
(Fonte: Jornal Opção)