segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Porto, poema

 




Existe um porto

em que nenhum

navio atraca.

Existe um rio

sem margens

onde não brota vida.

Existe um horizonte

sem linha

que não limita o bom

e a erva daninha.

Existe uma parede

de algodão que nada

segura e tudo traspassa.



Antiquário, poema

 


O regatear do tempo

dos antiquários

e seu armazém

de metonímias do passado.

Insinuam que a vida

 – reta –  

é circular

e apenas vivêssemos

na ponta inconclusa

do círculo que

nunca se fecha.

 

sábado, 3 de outubro de 2026

Cidade, poema

 




Deus é silencioso e calmo

na madrugada de letreiros

iluminados para ninguém.

Estou cansado

da claustrofobia

do círculo

que é a cidade.

A cidade necessita de um

geômetra

que, no compasso

dos ritmos,

rejeite a imperfeição

do Centro.

                         

 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Moça, poema

 

 


 

Depois, se perfuma

do líquido das glândulas.

Passeia as pernas

pelas aleias da praça

amplas como o mundo.

Na carteira da escola

onde cresce – cada ano –

a roliça madeira

das pernas dela.

Na igreja só o cheiro

de Deus: o incenso

e o corpo: em cápsula.

Haverá outras cidades

com cheiros excitados:

o cheiro dos arranha-céus.

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Rosa dos ventos, poema

 




Cheguei a ter uma rosa

dos ventos que apenas

floriu as cartas

que jamais recebi.

Não posso negar

que tenho a consistência

de um trem:

o meu início

pode ser meu fim

(basta que mude de lugar

a fornalha que arde

meus loucos motivos).

Cheguei a crer-me

medieval e encouraçado:

era apenas a Idade Média

da adolescência.


quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Sou Jorge e o Dragão, poema

 





Tenho nostalgias das pontes

e gosto da ideia de estar

suspenso entre duas margens.

Nenhuma arma

fere mais como

o fogo-fátuo

das sensações.

Passo então o dia

no mundo da lua:

Sou Jorge e o Dragão.




terça-feira, 29 de setembro de 2026

Lucidez, poema

 


 

As juntas do sonho

se espreguiçam

na largueza da alma.

Um facho de luz

não romperá a janela

tímida da rotina.

No espelho do banheiro,

engravatado e barba feita,

como numa foto 3 x 4.

Antes que a lucidez matutina,

que tudo expõe,

quero o esconderijo noturno

das plantas que vivem

sem saber que vivem.  

 

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Lenço, pooema

 




Meu coração bate

no peito como uma

máquina fotográfica.

Minha casa é uma cidade

pois nela cabem

as esquinas dos relógios,

o tumulto das praças

de alimentação,

os corredores das ruas.

Quando partir,

só os lenços brancos

me encherão os olhos

como lágrimas de pano.

 

 

 

 

domingo, 27 de setembro de 2026

Retrato, poema

 




Posso caber nos mais

míseros lugares:

nas frestas das janelas

abandonadas de um convento,

nos parafusos enferrujados

das mesas bambas,

nos vidros empoeirados

dos basculantes,

na dobra das cartas

do baralho de um jogo de pôquer.

O ínfimo, o pouco, o nada –

nenhum deserto tem a secura

de minha alma beduína.        

Ao me virem nas fotos

do álbum esquecido

na gaveta dirão:

quem é este de cabelos ralos

e óculos de aro fino?

 

 

 

sábado, 26 de setembro de 2026

Cavalo, poema

 



O cavalo,

com seus músculos

de corda,

relincha

ao pardo couro

do pasto queimado.

 

De rabo a raso

o cavalo é um soldado

na infantaria de seu dono.

Nada comanda,

nem mesmo seu corpo.

Aprendeu na caserna

da fazenda a disciplina,

o mando e a marcha.

 

O cavalo escova suas crinas

no pente do vento.

Quem inventou o cavalo

– besta de carga –

não foi a natureza e seu lombo

mas o furor utilitário,

o gosto humano

de servir-se do outro.

                                  

 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Ilusionismo, poema

 




Tudo falseia

num mundo de águas.

No aquário

existe a imitação da vida

marinha no estelionato

das ostras de plástico

que borbulham suas

pérolas de oxigênio.

Que ilusionismo é este?

Um poço de fundo falso,

um relógio sem ponteiros,                            

um trem sem trilhos

e o jogo de xadrez

– imóvel e eterno –

jogado sem peças.

Tenho medo de acabar

falando sozinho

como os loucos e os rádios.

 


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Bagaço, poema

 




A moenda dos dias

tritura o que já é bagaço.

Sem rosto,

não me encontro

em nada que faço.

Não sei se chego

ou se estou de partida.

Aqui fico, espectador,

a vida passa,

recolho minhas dores civis;

conclusão:

fui um fazedor que nada fez.

 

 


quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Putas, poema

 



Os carros passam

trotando os pneus.

As mulheres, espantalhos

na plantação das calçadas.

A língua ofídica.

A arma branca

soltada das braguilhas.

O medo é melado.

As cores baças escondem

as estrias da vida.

O gemido buzina.

A vida cortante,

como o vento das esquinas,

escorre pelas pernas.

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Diabo, poema

 

 


 

 

O lobo é o diabo do cordeiro

o capitão do seu sargento

o cachorro do gato

o inspetor do transgressor

na ciranda dos diabos e

dos pobres

todos somos pobres diabos.

O diabo é que o rico

é diabo mas não é pobre.

E se tem um diabo

para o diabo rico

- que o pode fazer pobre diabo –

é seu espírito atormentado,

que empobrece o diabo rico

e o torna um pobre diabo.

 

 

  

Tempo, poema

 

Botero



Quero ser como o tempo:

seco.

Quero ser como o tempo:

pedra no deserto

que se desgasta

indiferente à intempérie.

 

 

 

domingo, 20 de setembro de 2026

Giralua, poema

 

 


 

A canga do sereno

trepa nos meus ombros,

olho o jardim das giraluas,

que é o parente noturno

do girassol.

Tenho a disciplina rebelde

das águas encanadas,

o aquartelamento

dos sentidos,

a hipótese das velhas

cadernetas de telefone.

 

 

sábado, 19 de setembro de 2026

Esperança, poema

 

 


 

 

 

Não quero ter a esperança

dos bois de matadouro.

Sobreviver

como um pássaro

pousado na boca de um cão.

Alma seca e austera.

Vou à rua.

Trago o peso das compras

e a sugestão das vendas

nos olhos.

 

 

 

 

 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Náufrago, poema

 

 

 

 

Roberto Magalhães

 

 

 

Os aviões

farejam na pista

o capim cinza do asfalto.

O aeroporto são luzes

gritando e soluçando

no espaço de um pouso

e de uma decolagem

– a vida entre aspas.

Para nós que sobrevivemos

ao amigo suicida, ao louco

e ao que morreu na política,

a vida é o pasmo

de saber-se náufrago do ar.

 

 

 

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Frente e verso

 






Quando ando em Paris

no meu bairro

quando corro

e não saio do lugar

quando chego

em casa no trabalho

quando choro meus mortos

que ainda estão vivos

quando tiro

o pino da granada

da fruta de conde

é que meu verso

está na minha frente.

 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Fuga, poema

 

 



Há muita coisa armada

no horizonte

de concreto das cidades.

Minha pupila, por sua vez,

não aprende a realidade.

Da música de que sou feito,

pouco tenho harmonia,

e, pelos cantos,

há bastante fuga em mim.