domingo, 5 de abril de 2026

Um homem é muito pouco, trecho 2





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    Uma das frases que Clemente mais gostava era “não era ruim, mas também não era bom”. Clemente a usava para tudo que era indistinto, consumido pelo tempo, estéril ou indiferente. Pois bem, o macarrão do restaurante do hotel não era bom, mas também não era mau. Neste exato momento, sem que Clemente percebesse a carta deslizou bolso afora e, gravitando, caiu entre o lambri que soltou e a parede. Clemente, ocupado com sua fome que subitamente retornara, não percebeu que a carta perdera seu peso. E, com seu peso normal de papel, pôde ela esgueirar-se do bolso sem que o pretenso dono se precatasse da fuga. Mateus e Clemente pela primeira vez conversaram sobre amenidades, Clemente contou uma história longa e divertida de um clandestino.
    Era um angolano, um rapaz, que Clemente pegara roubando comida. Não tinha se alimentado durante três dias e estava numa condição abaixo do animal. Assustou-se quando viu Clemente. Ficou, contudo, mais preocupado com o pedaço de pão e salame que tinha nas mãos e não queria perder do que ser descoberto e levado ao comandante. Ele, o clandestino, defenderia até a morte seu direito de comer. Pegou uma faca de cozinha e ameaçou Clemente. Este riu, mostrou mais comida e disse que não se preocupasse que não iria delatá-lo. Os olhos do menino negro eram olhos inteligentes e Clemente acobertou o angolano que desceu no cais da Praça Mauá, estudou, casou e hoje é advogado com banca e tudo. Clemente ficou pensando que o pior clandestino não era aquele angolano faminto, o pior clandestino é o sujeito que anda pela vida como se não pertencesse a embarcação nenhuma. Ele, Clemente, se achava clandestino, talvez por isso a solidariedade imediata e reta. Onde quer que estivesse Clemente se sentia invasor, não permitido, escondido, sujeito que pode ser expulso a qualquer momento da embarcação, dos lugares, dos restaurantes, dos hotéis, da rua mesmo. Esse sentimento de clandestinidade poucas vezes desaparecia. O que mais doía, entretanto, era sentir-se clandestino em sua própria casa.
    Depois do almoço, ambos retornaram às suas casas. Clemente, cansado de tanta agitação, deitou-se na cama, com roupa e tudo e adormeceu. Dormiu como se fosse noite, um sono árduo.
Clemente entrou na cozinha no navio ao perceber a luz acesa. Lá estavam em volta da mesa o capitão Vaz, Selma, Oswaldo e Mateus. Oswaldo, como o companheiro marinheiro lá dele, vestia-se de mulher, o capitão Vaz não tinha os braços e reclamava: Por favor, Clemente, não faça isso comigo. Selma parecia mais uma prostituta dos portos em que o navio parava e não falava em língua humana, mas na língua suína que é a língua dos porcos. Selma tinha focinho, a boca pequena, o corpo gordo e único de porca. Só Mateus não havia se transformado. Era o velho Mateus de sempre. Anos antes, num porto sujo e pobre da Ásia, com poucos guindastes e sem armazéns, Clemente vira porcos comerem um miserável. Nunca imaginara que os porcos poderiam comer um ser humano e, muito menos, que um ser humano se deixasse comer por porcos. Mas o homem era velho e fraco, um fiapo asiático de homem e os donos dos porcos, também famintos, açulavam seus porcos a se alimentarem de carne humana. Serviu os pratos e nos pratos estavam os braços do capitão Vaz que chorava, enquanto Mateus, o travesti Oswaldo Lee Oswald e a porca Selma devoravam os braços do capitão Vaz. Um baque surdo contra madeira o despertou.
    Entre o sono e a vigília, sem se dar conta ainda de onde estava, se no quarto de sua casa ou na copa da cozinha do navio, Clemente se perguntava se encontraria com o capitão Vaz aleijado, a porca Selma e Lee Oswald mulher. Ainda mal despertava quando então escutou o segundo baque. Percebeu, não desfazendo ainda por completo a alucinação do sonho, que estava na Praça 11 e aquele barulho poderia ser de alguém a invadir a casa. Levantou-se. Sentia-se tonto. Voltou-lhe o balançar de nave. O sentimento de aprisionamento caiu-lhe fundo na alma com a decisão e o peso de âncora lançada n’água. Entrou corredor adentro a procurar a fonte do ruído. Vinha da cozinha. Conhecia aquele estrépito: o esquartejamento das aves e carnes. A quem esquartejavam?
    Era d. Evelina que, com um cutelo, partia o frango. À primeira vista, lembrou-lhe um elemento a mais do pesadelo. D. Evelina era baixa e gorda, com vincos profundos no rosto, cortando a pele escamosa, que mais lembrava terem sido feitos a talho do que pela erosão da idade. Tinha mãos pequenas, mas fortes, nunca pedira a Clemente que lhe abrisse pote, nem recusara o peso de uma estante. As pernas grossas, de veias escuras serpenteando canela acima, davam-lhe o aspecto de precária estrutura, embora firmemente fixada ao chão. Os olhos saltados e as narinas de fole aberto punham fúria onde só havia humildade. A empregada se espantou ao ver o patrão entrar. Ele, ainda prisioneiro do medo, tinha o rosto sem sangue, as mãos poucas, as pernas sem apoio. Mas foi o olhar de náufrago o que assustou a empregada. De cutelo na mão, ela avançou para Clemente no intuito de socorrê-lo. Se ao menos ouvisse o que ela dizia, seu Clemente, o senhor está pálido, está doente, quer ajuda, chamo alguém, médico ou ambulância? talvez não sofresse o pânico de ver sua empregada, como no pesadelo, investir para ele a fim de matá-lo.




(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)


quarta-feira, 1 de abril de 2026

A personagem do romance, ensaio 2

 






(Trecho do livro Narrativas da vida, o personagem do romance. São Luís, Academia Maranhense de Letras, 2023. Também encontrado em e-book, na Amazon)



(....)


               Muitos veem em Dom Quixote e Sancho Pança as versões despregadas e com vida ficcional própria, e não apenas um pensamento contraditório, de um só personagem, ou se quiserem, de uma só persona. A loucura e a sensatez, o desvario e o bom-senso, o desbordamento e a vida prática, o sonho e a realidade. Nabokov, no seu livro Curso sobre el Quijote, observa que “cavaleiro e escudeiro são em realidade uma só coisa”. Dom Quixote é homem de seu tempo com a natureza filtrada do Renascimento, verde e bucólica, temeroso da Santa Inquisição, preconceituoso contra os mouros. Nabokov cita Duffield, que traduziu o livro para o inglês e fez comentários em sua introdução em 1881.

 

            A Espanha do século XVI estava invadida de loucos do mesmo tipo, homens com uma ideia fixa. O país estava em mãos de loucos: o rei, a Inquisição, os nobres, os cardeais, os padres e as monjas, todos eles dominados pela exclusiva convicção, imperiosa e prepotente, de que para chegar ao céu havia de passar por uma porta de cujas chaves eram eles guardiães. [...]. Para nós tem o maior interesse o fato de assegurarmos que Cervantes sabia de que tinha entre as mãos quando se pôs a fazer um mapa da mente humana. Foi talvez o primeiro a navegar por essa região mais escura, falando em termos do caráter dessa escuridão pavorosa e mostrar como sobre ela podia brilhar a luz salvadora. O prazer que encerra a tarefa de demonstrar esta afirmação não é menor que o seguir as aventuras de Dom Quixote em seu país natal.[1]

 

            Esse personagem romanesco, contudo, não tem tanta densidade interior. As aventuras se repetem e repetem. O que o transforma e nos fixa é sua atitude, exatamente sua exterioridade e os câmbios de “inimigos” que acabam por dar-lhe outra investidura de pensamento e internalização. Desta maneira, ao contrário do romance moderno, Cervantes nos oferece a oportunidade de interagir com o personagem extraindo de sua quase total introversão fazendo-o atuar de fora para dentro. O embate entre o interior e o exterior do personagem será visto mais à frente. Mas pode-se dizer que esta será uma constante na formação do personagem ficcional. As ações que conformam a psique e/ou a psique que deforma ou cria a realidade vivida pelo personagem.

            É interessante observar que o romance aparece como crítica social e apoiando-se no antagonismo personalidade x ambiente adverso. O antagônico é que o personagem quer pertencer ao seu tempo e a seu grupo social. O único meio que encontra para realizar sua intenção interativa é justamente o que vai afastá-lo do convívio perverso com a realidade. O trato com a pobreza de seu tempo se dará por intermédio do intercurso entre ele e seu escudeiro. Repare-se que o reverso de Dom Quixote é pobre e realista. A habitação de dois mundos conflitantes dentro do personagem, ilusão x realidade, irá conformar a grande maioria dos personagens universais daí para a frente na prosa de ficção.

            Antissocial e irresponsável, classifica Nabokov o personagem. “O vagabundo, o aventureiro, o louco, é fundamentalmente não social e irresponsável”. Dom Quixote é um cavaleiro fora de lugar, não representa sua classe, não se agrega a grupo algum, não reivindica mais que sua loucura e busca frenética e aleatória. Deslocado no tempo, já que a figura de um cavaleiro andante no fim do século XVI é algo ridículo.

            O livro teve grande recepção e fora traduzido imediatamente, em tempos de pouca comunicação entre as culturas, para o inglês, francês e outras línguas, num fenômeno muito hoje conhecido, mas espasmódico naqueles tempos. Parece que o imaginário do leitor havia incorporado uma semelhança de amplitudes e de percepções semelhantes mesmo em países com diversas formações. É certo que o medievalismo perpassou a todos e muitos só o foram abolir tardiamente.

            Nabokov escreve que, ao tempo de Cervantes, já não havia a fama e consumo massivo das novelas de cavalaria.

 

            É comum dizer-se que a moda dos livros de cavalaria era na Espanha uma espécie de praga social que havia de combater, e que, também se diz, Cervantes combateu e destruiu para sempre. Minha impressão é que tudo isto é exagerado, e que Cervantes não destruiu nada; de fato, hoje mesmo se resgata donzelas em apuros e se matam monstros – em nossa literatura barata e em nosso cinema – com o mesmo entusiasmo de séculos atrás. [...]

Mas se pensamos nos livros de cavalarias segundo o sentido literal da expressão, então creio que descobriremos que para 1605, o ano do Dom Quixote, sua moda já quase havia desaparecido; e fazia vinte ou trinta anos que se notava seu declive. A verdade é que Cervantes está pensando nos livros que lera em sua juventude e que depois não voltara a olhar (suas alusões estão cheias de erros) [...] [2]

 

Não há, contudo, como fugir dessa observação de que os grandes personagens na literatura, não apenas pela fatura genial de suas criações e de sua grande produção narrativa, tenham criados arquétipos tão densos como, no teatro, o aparecimento de, por exemplo, Don Juan. Outros arguirão que a grande literatura sempre trata de arquétipos, a que me oporei por acreditar que o papel do romance não é a criação de estruturas mentais que servem para o uso de outras ciências. Se acaso o romance responde a uma questão estética e, ao mesmo tempo, carrega com ele um elemento arquétipo, melhor para o autor e seu personagem. Mas a literatura não foi feita nem é consumida para servir às ciências do homem.



[1] Introdução, de 1881, à versão inglesa de Dom Quixote traduzida por Alexander James Duffield in: Nabokov, Vladimir. Curso sobre el Quijote. Barcelona: Ediciones B, S.A., 1997. p. 30.

[2] Nabokov, Vladimir, idem. p. 80-81.


segunda-feira, 30 de março de 2026

Plástica, poema RCF








A única plástica que me serve
não é na face, mas nas lágrimas.
Quero um rosto sem lágrimas, doutor.
Retirar a glândula que produz
a lágrima dos mortos.
Meus mortos surgem no trânsito,
no banho, no banco, no trabalho.
Os mortos não deviam vir ao trabalho.
Choraria em seco.
Um rosto seco, um rosto plástico,
um rosto cirúrgico.
E sem saber por que não podem
sair do cárcere seco em que os pus,
renasceriam na caixa imaginária,
que é a memória,
em outra forma que não fosse líquida.




(Memória dos porcos, Rio: 7Letras, 2012)

quinta-feira, 26 de março de 2026

Outubro, poema de Ronaldo Costa Fernandses





Odeio as geladeiras
que conservam corpos esquartejados;
as agendas que escrevem à mão o futuro.
Os cães daqui de casa latem para o sol
como os lobos para a lua.
Não são duas faces da mesma moeda,
mas as duas moedas da mesma face da vida.

Quero ser uno e dois,
aprender com a disciplina dos becos,
lá onde a saída é a entrada.
Quero ser estático e andarilho,
aprender com a disciplina dos rios
que se movem sem sair do lugar.



(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)




terça-feira, 24 de março de 2026

Lorca e Dalí, uma amizade transbordante, alucinada


 


 

A relação entre Salvador Dalí e Federico García Lorca foi de uma amizade transbordante, alucinada – e, por incrível que pareça, mais solicitante da parte de Lorca – e acabou por influenciar o poeta granadino. Há um momento crucial na trajetória de Lorca ao publicar o seu Cancionero gitano. Era o momento mais alto de uma poesia enraizada no solo de Andaluzia. Ao mesmo tempo em que recebia as melhores críticas e tinha se tornado um poeta nacional, Lorca recebia uma admoestação devastadora de Dalí que lhe escrevia desde Figueres, sua cidade natal na Catalunha.

Na carta, Dalí acusava Lorca de ser passadista, de ter feito um livro “costumbrista”, uma poesia provinciana, localista, logo pouco universal. Este “gitanismo” de Lorca ia contra toda a estética do pintor catalão. Dalí gostara muito das odes que escrevera o poeta andaluz porque uma era a ele dedicada e estavam despojadas de elementos pitorescos e anedóticos e pejadas de surrealismo. “Ode a Salvador Dalí” e “Ode ao Santíssimo Sacramento” são dois poemas longos, distante da temática cigana, e construída com uma estética que não prima pelo ritmo das redondilhas e refrões típicos do “cante jondo” da sua Granada.

Antes, Salvador Dalí havia escrito um longo elogio, estranho e deslocado elogio, a São Sebastião. Os dois tinham verdadeiro fascínio pela figura jovem e despida, musculosa, de San Sebastián. A literatura de Dalí era tortuosa, com ortografia própria – e imagens desbordantes. Entre outras tantas imagens aparece, por exemplo, frases do tipo: “Cada minuto llegaba el olor del mar y anatómico como las piezas de un cangrejo”. Já era uma forma de literatura que impressionou García Lorca tanto quanto os quadros do pintor. Dalí passou a ser para o poeta um teórico não apenas da arte em geral, mas da teoria da literatura. Vale lembrar que Dalí era mais jovem que o poeta granadino e estava naquele momento se afastando de Lorca (para a tristeza e ciúmes de Federico). Outro que condenou – e chegou até mesmo a ridicularizar – foi Buñuel que por esse tempo se aproximava mais de Dalí. Ambos se reuniram, nesta época, para escrever o roteiro de Le chien andalou. A carta que Buñuel escreveu condenando Lorca com os mesmos argumentos de Dalí parece, contudo, não chegou a ser lida por Federico. 





domingo, 22 de março de 2026

O viúvo 18











          O jardineiro vem uma vez por semana. Poda as árvores pequenas, corta a grama, limpa a varanda, trata das árvores frutíferas, arranca as ervas daninhas, enfim, trata o jardim com a necessária atenção de profissional. Mas não tem mãos delicadas para outras artes como as flores. As rosas acontecem. Simplesmente, acontecem.

Nascem não sei como, surgem uma manhã e lá ficam, depois desaparecem. Nunca mais voltam a nascer. Não há adubo, corte ou trato que dê jeito. E se as quaresmeiras, ipês ou buganvílias dão colorido, sopram seus ventos de folhas roxas, amarelas e violetas, é mais porque a natureza persiste, não descansa, ignora o homem e suas mãos toscas.

Nada é precipitado no jardim. Torna incurioso o fantasma de Lídia, com suas queixas descabidas e mortas.

E mais importante: o jardim manda-me o recado de que é preciso resistir contra as mãos inábeis dos homens. É preciso acreditar em algo. Ter idéias que é a maneira de dar fruto, porque não dar fruto é uma ação contrária à natureza.

Às vezes aborreço-me. Quero mandar o jardineiro embora. Acredito que seja luxo, desperdício, que não o mereço e, nesses momentos, me surge dúvida maior, não é mais o jardim que interessa, o jardim é subsidiário de outra emoção que também considero exagerada e perdulária, a de que, assim como o jardim, não mereço companheira, não mereço amigo, não mereço agrado dos alunos, que desperdiço a vida, seco como folha morta, não posso me dar prazer ou luxo de ter jardim, amor, amizade e outros sentimentos prazerosos, incompatíveis com o salário, o modo de viver, a paixão e a casa com jardim.

Logo olho para o jardineiro com outros olhos. Já não está ali o sujeito desajeitado que não sabe cuidar das plantas e flores. Ali está na minha frente a personificação do gasto que não posso cometer, do amor que não me permiti. O jardim lá está, indiferente às angústias.

Queira eu ou não, o jardim desorganiza-se, cria sua própria ordem e apenas surge silencioso, recluso, sem insistência.

            Meus pés não me merecem. Quando quis ser andarilho, o médico cortou a pretensão. Mas tenho persistido, porque o caminhar para mim é vital. Desconfiança de que o médico, assim como me condenou à imobilidade, me condene agora a outro tipo de imobilidade. Desconfiança do diagnóstico: O pensamento faz mal a você. Diagnóstico medonho. Mas como me impedir de pensar?

         Quer que eu evite os pensamentos mais elaborados, raciocínios delicados ou sofisticados que me levam à angústia, então há de cortar o mal pela raiz e neste caso o mal é o pensamento intelectual e a raiz o hábito de exercitá-lo.

         Volto ao pé – que do pé passei à cabeça –, meus pés são tortos, voltados para dentro, não manco, ninguém percebe o defeito. Só não posso dar grandes caminhadas. Assim como não posso abusar do pensamento, o que também me atrai. O primeiro me leva a dores musculares e até ósseas; o segundo me provoca a angústia infernal, dói-me a alma, que não tem ossos, dói-me o espírito que me abate e me deprime.


(O viúvo, Brasília, LGE, 20015)

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quarta-feira, 18 de março de 2026

Réquiem , poema RCF

 



 

Posso caber nos mais míseros lugares:

                        nas frestas das janelas abandonadas de um convento,

                        nos parafusos enferrujados das mesas bambas,

                        nos vidros empoeirados dos basculantes,

                        na dobra das cartas do baralho de um jogo de pôquer.

 

Indiferente aos carvalhos e às mãos longas do adeus,           

                        descerei o rio das aleias, na canoa rija.

                        A morte flui como um rio embora outras formas

                        de água sejam mares mortos.

                        Como a piscina:

                                                           estranha tumba

                                                           onde nenhuma vida viceja

                                                           na água clorada

                                                           e         

                                                           passageira dos banhistas.

 

Tudo falseia num mundo de águas.

                        No aquário existe a imitação da vida

                        marinha no estelionato da ostras       

                        de plástico que borbulham suas

                                                                       pérolas de oxigênio.

 

O ínfimo, o pouco, o nada –

                                                           nenhum deserto tem a secura

                                                           de minha alma beduína.   

 

Que ilusionismo é este? Um poço de fundo falso,

                                    um relógio sem ponteiros,                       

                                    um trem sem trilhos

                                    e

                                    o jogo de xadrez – imóvel e eterno –

                                    jogado sem peças.

                                    Tenho medo de acabar falando sozinho

                                    como os loucos e os rádios.

 

Ao me virem nas fotos do álbum esquecido

                                    na gaveta dirão:

                                                           quem é este de cabelos ralos

                                                           e

                                                           óculos de aro fino?

 

 

 (do livro Estrangeiro. Rio: Sette Letras, 1997)

 

 

quinta-feira, 12 de março de 2026

Tambores, poema de Matadouro de vozes

 


 




 Que tombos ouço

que bumbam o boi?

 

O chapéu de penas

flutua o matadouro.

 

O boi de duas pernas

zabumba

o pasto do patrão.

 

As lantejoulas polvilham

estrelas na noite mais áspera.

 

Dançam as palmeiras

com seus braços embriagados

de matracas e surdos.

 

quarta-feira, 11 de março de 2026

Vertigem das baixezas, poema RCF




Os alpinistas escalam a morte.
Também sei o perigo do cume,
mesmo sem me deslocar,
sei o alpinismo dos olhares submersos
que me fazem perder o pino.



(Eterno passageiro, 2004)




segunda-feira, 9 de março de 2026

O amor traduzido, poema RCF


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Visitei a casa do ciúme,
onde se supõe que cada sombra
esconde encontros lúbricos
atrás de portas que se multiplicam
como espelhos postos um diante do outro.
Pensei em gestos ensandecidos:
enforcamento por pasmo,
o arsênico da fome,
o gás do flagrante.

Vesti-me de todas as maneiras,
deixei o cabelo crescer;
cortei o cabelo,
usei bigode e fiz curso noturno.
Li poemas de Shakespeare,
no original,
porque o amor
é de difícil tradução.



(poema reescrito do livro de estreia Estrangeiro, Rio, Sette Letras, 1997)

O papel de cada um, poema de Matadouro de Vozes

 


 

 


 

 

 

Nem todo papel

tem o mesmo peso.

Os papéis do divórcio

têm a gramatura descabelada.

O quilo do atestado de óbito

é áspero e melancólico.

 

A saliva da máquina me azeita.

Guardo a fome na despensa.

A roda do desejo ainda me saliva.

 

A largura do mínimo.

Trago minhas opiniões,

evaporo minhas ideais,

e o que me resta são cinzas.

 

Minha pele, o papel do meu corpo,

se destitui do tempo.

 

 

sexta-feira, 6 de março de 2026

Anatomia do pó, poema RCF











I

Essa invisibilidade me corrompe.
A que espécie de tédio pertence o pó?

II

O grão do pó se materializa
em camadas de memórias abandonadas.

III

Pele porosa de terra.
Superfície sobre superfície.
Um bicho de duas peles.

 


 
(Eterno passageiro, 2004)
 
imagem retirada da internet: vermeer


Crítica a Vieira na ilha do Maranhão (Pravda)

Os anos do padre Vieira no Maranhão






25.08.2019

 

Os anos do padre Vieira no Maranhão
                                                                                 Adelto Gonçalves (*)
                                                           I
Depois de produzir um romance, O viúvo (Brasília, LGE Editora, 2005), que foi classificado por este crítico como "uma das poucas obras-primas do romance brasileiro deste início de século XXI", o romancista, poeta e ensaísta Ronaldo Costa Fernandes (1952) acaba de mostrar que sua forja continua bem acesa, ao lançar, desta vez, Vieira na ilha do Maranhão (Rio de Janeiro, 7Letras, 2019), que constitui um tentativa exitosa de criar um gênero híbrido de crônica e romance, misturando história à ficção, como bem observou o contista Alexandre Arbex na apresentação que escreveu para este livro. < /span>
 
Sem pretender o foro de biografia do padre António Vieira (1608-1697), a obra procura reconstituir a passagem de oito anos, de 1653 a 1661, do missionário pelo Maranhão, onde sua voz ecoou por várias vezes no púlpito das igrejas para condenar o regime de escravidão a que os poderosos do local impunham aos indígenas. Trata também de recuperar os embates que o religioso teve de enfrentar contra a elite local, os chamados homens-bons, ou seja, os proprietários de terras que insistiam em fazer do Estado uma extensão de suas casas senhoriais, tal como ainda o fazem hoje muitos de seus descendentes.
Talvez porque carregasse em suas veias um pouco de sangue africano, pois seu pai, Cristóvão, de origem alentejana, saíra das entranhas da filha de uma mulata ou africana, Vieira sempre haveria de defender os perseguidos, inclusive, os judeus, o que lhe causaria muitas perseguições, especialmente em Portugal. Já a mãe de Vieira era uma lisboeta de quatro costados, embora não fosse oriunda de família rica.
Cristóvão, escrivão da Inquisição, mudou-se para o Brasil em 1614, para assumir cargo de escrivão em Salvador, na Bahia, mandando vir em 1618 a família, que incluía António e mais três filhos. Na Bahia, António iniciou seus estudos no Colégio dos Jesuítas de Salvador, ingressando na Companhia de Jesus como noviço em 1623, prosseguindo os seus estudos em Teologia, Lógica, Metafísica e Matemática. 
A partir de 1627, passou a atuar como professor de Retórica em Olinda, retornando a Salvador para completar seus estudos, onde em 1634 seria ordenando sacerdote. Nesta época, já era conhecido pelos seus primeiros sermões, tendo fama de notável pregador. Em 1638, foi nomeado como professor de teologia do Colégio Jesuíta de Salvador.
Após a restauração da independência de Portugal em 1640, regressou a Lisboa iniciando uma carreira diplomática, pois integrava a missão que ia ao Reino prestar obediência ao novo monarca. A partir de então, começou a criar fama como pregador em razão da eloquência e firmeza com que fazia seus sermões. Por outro lado, suas pregações começaram a lhe causar dissabores, o que contribuiu para retornar à América portuguesa, desta vez estabelecendo-se no Maranhão em 1653, ano em que proferiu o famoso Sermão da Primeira Dominga de Quaresma com o qual tentou convencer os senhores de engenho a libertarem os seus escravos in dígenas.
                                               II
É a partir daqui que Costa Fernandes procura recuperar o que foi a estada de Vieira no Maranhão, criando outras personagens que gravitavam em torno do grande catequizador, como o mouro Omar Zaher, homem de dois metros de altura, que sonhava escrever um dicionário universal e vivia cercado de alfarrábios de outras línguas europeias; o holandês Johannes van Basselar, que trocara a civilização europeia pelo amor de uma indígena, chegando ao exagero de participar da atividade canibalista da nação nheengaíba; e o padeiro Bento, preso por atentar contra a vida do fidalgo Nogueira de Almeida, a quem considerava um curupira, acusando-o de ter "vomitado" a peste da bexiga negra no povo do Maranhão.
Outra personagem inolvidável é o sapateiro José Manuel Gordilho, casado com uma índia juruna, que era acusado de ter muita leitura e criar "profecias que só Vieira dava conta de entender em versos maltrapilhos e desencontrados". O sapateiro era pai de Luzia, moça que tinha uma cabeça descomunal que não parava de crescer e inchar ainda que estivesse confinada num elmo de ferro.
Por esta amostra das personagens, o leitor pode estar certo de que vai encontrar neste livro uma narrativa pouco usual, multifacetada e polifônica, que se destaca por uma dicção peculiar, que procura reconstruir o português falado no século XVII, aproveitando também a linguagem que se lê nos sermões e cartas da personagem principal, o padre António Vieira, como se percebe no trecho abaixo:
(...) Os mais jovens, impetuosos, arrebanhados pela ideia mística, nunca ouviram palavras tão belas e deformantes. Um mundo de espetáculo onde em vez de circo ouvem-se apenas os saltos e malabares da palavra. E Vieira agora abusa de sua oratória e em tom mais grave e alto sentencia: "No Maranhão não é necessário ao demônio tanta bolsa para comprar todas as almas: não é necessário oferecer reinos, não é necessário oferecer cidades, nem vilas, nem aldeias. Basta acenar o diabo com um tujupar de pindoba e dois tapuias; e logo está adorado com ambos os joelhos. Oh que feira tão barata." 
Os colonos mais pobres assentiam com a cabeça, horrorizados com o poder do diabo. Os fidalgos bufavam, inquietos no banco incomodante. A maioria, contudo, ouvia certa música celestial onde não havia mais que a voz de Vieira.
 Eis aqui um texto marcado por um tom satírico da primeira à última linha, numa linguagem que percorre ao mesmo tempo a História de Portugal e do Brasil e deixa à vista sua dimensão trágica que nos chega até hoje através de personagens que em sua pequenez não diferem muito daqueles de quatro séculos atrás. Levantando e recriando histórias, mitos e mistérios a partir de apurada pesquisa, esta obra oferece ao leitor uma oportunidade única para se conhecer um Brasil que parece surreal, mas que não difere, em muitos aspectos, daquele em que vivemos.
                                               III
Nascido em 1952 em São Luís, o maranhense Ronaldo Costa Fernandes é mestre em Literatura Hispano-americana pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutor em Literatura pela Universidade de Brasília. Deu aulas de literatura na Universidade Notre Dame (1977) e na Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante. Foi chefe do Setor de Arte e Cultura da Universidade Católica de Brasília de 1997 a 1998 e trabalhou na Secretaria Especial da Presidência da República em 1985. 

Pertence ao quadro do Ministério da Cultura desde 1980. Foi coordenador da Fundação Nacional de Artes (Funarte), órgão ligado ao Ministério da Cultura, de 1995 a 2003. Cedido nesta época ao Senado Federal, trabalhou no Conselho Editorial da Casa. Dirigiu, durante nove anos, o Centro de Estudos Brasileiros da Embaixada do Brasil em Caracas. Foi, durante três anos e meio, professor-convidado de Literatura Brasileira na Universidade Central da Venezuela. 
É membro desde 2005 da Academia Brasiliense de Letras, cadeira XVIII, cujo patrono é o poeta Cláudio Manuel da Costa (1729-1789). Recebeu, em 1996, a Medalha La Ravardière, comenda da municipalidade da cidade de São Luís. Desde 2006, é membro da Academia Maranhense de Letras. Ganhou os prêmios de Revelação de Autor da Associação Paulista de Críticos de Artes, Casa de las Américas e Guimarães Rosa.
Entre suas obras, estão os livros de poemas Estrangeiro (1997), Terratreme (1998), que recebeu o Prêmio Bolsa de Literatura da Fundação Cultural do Distrito Federal, Andarilho (2000), Eterno passageiro (2004) e A máquina das mãos (2009), que ganhou o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras. Em 2007, lançou Manual de Tortura (2007), contos, e A Ideologia do personagem brasileiro (2007), ensaio.
Em 2010, lançou o romance Um homem é muito pouco e, em 2012, Memória dos porcos. Em 2014, publicou O difícil exercício das cinzas, seguido pelo livro de ensaios A cidade na literatura (2016). Em 2018, publicou Matadouro de vozes, conjunto de poemas que mescla "um tom filosófico com quase imperceptíveis - à primeira vista - apelos políticos e sociais incrustados nas entrelinhas de versos harmoniosos entre si", segundo definição do crítico José Neres, em resenha publicada no jornal Correio do Estado, de Campo Grande-MS, em 7/5/2019.
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Vieira na ilha do Maranhão, de Ronaldo Costa Fernandes. Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 2019, 218 páginas. E-mail: editora@7letras.com.br   Site:www.7letras.com.br
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(*) Adelto Gonçalves, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Ofic ial do Estado de São Paulo, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br